Em Defesa da Democracia e do Respeito Constitucional
Para: Procuradora-Geral da República, Tribunal Constitucional e Assembleia da República
Exmos. Senhores,
Os cidadãos abaixo-assinados vêm, ao abrigo do artigo 52.º da Constituição da República Portuguesa, apresentar a presente petição pública em defesa do Estado de Direito Democrático e dos valores fundamentais da Constituição, face às declarações e campanhas reiteradas do deputado André Ventura, líder do partido CHEGA e atual candidato à Presidência da República.
Durante a sua campanha presidencial e em diversas intervenções públicas, incluindo no Parlamento, já na qualidade de deputado da Nação, o referido candidato repetiu declarações segundo as quais “eram precisos três Salazares para acabar com a corrupção em Portugal”, evocando de forma elogiosa o antigo chefe do Estado Novo.
Paralelamente, a sua campanha tem recorrido a outdoors e slogans de cariz discriminatório e racista, reforçando uma narrativa política que contraria frontalmente os valores democráticos e constitucionais consagrados em 1976.
Estas manifestações públicas não são isoladas nem inocentes: configuram um padrão político de glorificação de um regime ditatorial e de normalização de discurso de ódio, praticado por um representante eleito e candidato a Chefe de Estado.
Trata-se, portanto, de um atentado ético e institucional à Constituição da República Portuguesa.
ENQUADRAMENTO CONSTITUCIONAL
As declarações e campanhas em causa violam o espírito e a letra da Constituição, designadamente:
Artigo 2.º - que consagra Portugal como Estado de Direito Democrático, baseado no respeito pelos direitos fundamentais e no pluralismo político;
Artigo 13.º - que estabelece o princípio da igualdade e proíbe qualquer forma de discriminação, incluindo política ou racial;
Artigo 46.º, n.º 4 - que proíbe associações ou propaganda que perfilhem ideologia fascista;
Artigo 282.º - que prevê a dissolução de organizações que atentem contra o regime democrático e os seus valores.
O exercício de um mandato parlamentar e a candidatura à Presidência da República implicam o dever reforçado de respeito pela Constituição e pelas instituições democráticas.
A utilização reiterada de discursos e símbolos ligados a um regime ditatorial descredibiliza o Parlamento, banaliza a memória histórica e incentiva a erosão dos princípios democráticos.
PEDIDOS CONCRETOS
Os cidadãos abaixo-assinados solicitam às instituições competentes que:
A Assembleia da República delibere uma posição formal de repúdio destas declarações e práticas, reafirmando o compromisso da República com a Constituição e a Democracia;
A Comissão de Ética, Transparência e Estatuto dos Deputados aprecie a conduta do referido deputado, quanto à compatibilidade entre tais declarações e o juramento constitucional dos eleitos;
O Ministério Público avalie a eventual violação dos princípios constitucionais e o impacto das mensagens de teor autoritário e racista no quadro do Estado de Direito;
O Tribunal Constitucional seja chamado a pronunciar-se sobre a compatibilidade destas declarações e práticas com os limites da liberdade política e de expressão definidos pela Constituição;
Sejam debatidas medidas legislativas e educativas de prevenção da propaganda antidemocrática e de promoção da memória histórica, reforçando o papel da Assembleia da República como guardiã dos valores constitucionais.
???? NÃO SE TRATA DE UMA QUESTÃO PARTIDÁRIA, MAS DE UMA QUESTÃO DE ESTADO.
O povo português conquistou, com sacrifício e coragem, a liberdade, o pluralismo e a democracia.
A banalização do discurso autoritário e racista representa uma regressão moral e civilizacional que a Constituição nos obriga a rejeitar.
A liberdade de expressão não pode ser invocada para minar a própria Democracia.
Por isso, pedimos a intervenção urgente das instituições da República, em defesa da Constituição, da memória democrática e da dignidade das funções de soberania.
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Assinaram a petição
20
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