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25 de Novembro, Feriado Nacional!

Para: Assembleia da República

O golpe de 25 de Novembro de 1975 foi uma tentativa de golpe militar conduzido por uma facção das forças armadas, cujo fracasso resultou no fim do Processo Revolucionário em Curso, permitindo que se instaurasse em Portugal uma democracia pluralista, política e constitucionalmente baseada num regime semi-presidencialista, e economicamente baseada numa economia de mercado.Foi a ultima tentativa conhecida de um golpe que pretendia instaurar uma nova ditadura, desta feita Comunista.

Os signatários desta petição pretendem que, o 25 de Novembro seja decretado feriado nacional, e que sejam assim homenageados todos aqueles que evitaram que Portugal se tornasse numa ditadura comunista, nomeadamente Jaime Neves.

JAIME NEVES, o Herói do 25 de Novembro!

A VERSÃO oficial do 25 de Novembro está correcta ou há episódios que ainda não
foram contados?

Está correcta.

Não faltam episódios?

Há alguns que talvez não tenham sido devidamente contados. Lembro-me que no dia 25
de Novembro tivemos um grande problema ao querer que o general Costa Gomes
assumisse o papel de chefe das Forças Armadas. Ele não queria. Houve uma reunião em
Belém em que estive com o Eanes, o Rocha Vieira e outros e fomos lá falar com ele. O
general Costa Gomes era um homem muito inteligente mas era muito hesitante. Depois,
muito a medo, lá tomou posição. Nós não faríamos nada se ele não se pusesse à frente
daquilo.
Mas o 25 de Novembro precipita-se por causa das ocupações de quartéis por parte da
esquerda militar.
Claro, mas nós estávamos preparados para isso. Há um episódio a que não se dá o
verdadeiro relevo. No dia 24 de Novembro chegou ao Tejo, vindo de Luanda, o
batalhão de pára-quedistas comandado pelo brigadeiro Almendra. E uma delegação dos
pára-quedistas foi esperar o barco à entrada do Tejo. Como eles tinham o armamento
todo, quiseram convencê-los a alinhar com os da base de Tancos. Eles disseram que não
e seguiram para base de Cortegaça. Se esses mil e quinhentos homens tivessem
alinhado, o desfecho do 25 de Novembro poderia ter sido diferente.

Como explica que Otelo Saraiva de Carvalho tivesse desistido de intervir no dia 25 de
Novembro?

Nós tivemos uma reunião na noite de 24 de Novembro no quartel-general para o tentar
convencer a desistir. Ele não ficou convencido mas abandonou o terreno. E, no dia
seguinte, foi preso.

Como comenta a afirmação de Pires Veloso de que só ele, Lemos Ferreira e Jaime
Neves é que tiveram uma acção relevante no 25 de Novembro?

Respeito a opinião das pessoas, é a dele. Isso é uma crítica a Eanes. Eu era muito amigo
do Pires Veloso e um dia disse-lhe: 'Não morro de amores pelo Eanes, mas o
ódio que você tem ao homem é visceral'. Quando houve o 25 de Novembro, no relatório
final, o Eanes não referiu o Pires Veloso. Julgo que é isto que o magoa.

Já reatou relações com o general Eanes?

Vamos lá a ver. Somos do mesmo curso, estivemos na Índia juntos; estivemos em
Angola e Moçambique juntos e até namorámos com duas irmãs durante dois anos e
nenhum de nós casou com elas. Mas em princípio de 1979 ele fez uma reunião no forte
de Catalazete com 15 pessoas, dos quais militares eram 10 ou 12. Ele informou-nos de
que estava a ser muito pressionado para se recandidatar a Presidente da República mas
que não queria. Eu disse-lhe: “Tu é que sabes”. A reunião terminou, tendo como
conclusão de que ele não se iria recandidatar.

Passados 15 dias vejo o Eanes no estádio
da Luz, ele que não gostava de futebol. Aí pensei: ele não gosta de futebol e está aqui?

Só pode ser para se recandidatar...
Aí não teve dúvidas...
Não. E um sábado de manhã, nunca mais me esqueço, o Eanes telefona-me para casa a
dizer que queria falar comigo. Eu ia para o Porto e ele disse que me punha lá de avião se
eu perdesse o comboio. Cheguei ao palácio de Belém, junto à escadaria que dá para a
Calçada da Ajuda. Comecei a subir e ele disse para eu esperar que vinha ter comigo. A
meio daquela escadaria, às 7 horas da manhã, ele diz-me: 'Se eu concorrer e o Soares
Carneiro também, em quem é que votas?'. O maior conselheiro dele era o Soares
Carneiro porque era um militar com experiência política. Eu disse-lhe que se o Soares
Carneiro era o melhor conselheiro, como ele dizia, era nele que votava.

Sabe qual foi o primeiro acto que o Eanes fez na altura em que tomou posse?

Não.
Demitiu o general Pedro Cardoso que era chefe de Estado-Maior do Exército e que, tal
como eu, tinha apoiado Soares Carneiro.

Voltou a falar com Ramalho Eanes?

Tive uns contactos com ele muito frios. Desde 1979 para cá devemos ter falado para aí
umas cinco vezes.

E nada mudou agora que Ramalho Eanes propôs a sua promoção?

Nada mudou.
Todos os seus companheiros do 25 de Novembro acabaram por ter uma projecção muito
mediática.

Porque ficou sempre um pouco na sombra da história?

Eu, militarmente, fiquei onde quis, fiquei a comandar o Regimento de Comandos.
Nunca fui um homem político.
Mas tomou posições políticas, interveio no 16 de Março e no 25 de Abril de 1974.

Quando regressou da sua última comissão em Moçambique já achava ser preciso mudar
o estado das coisas?

Exactamente. Eu comandava em Moçambique o Batalhão de Comandos, que era talvez
a maior unidade do exército português. Tinha sob o meu comando mais de 30 capitães.
E sentia, nessa altura, a insatisfação.

Mas em Moçambique tinha conversas políticas com os seus capitães?

Sim, eles faziam umas reuniões e vinham-me contar tudo. Estava a par do que se
passava. As insatisfações eram de vários tipos. Havia capitães que estavam cansados de
ter tantas comissões, outros acabavam por ter problemas familiares muito complicados
por estarem em África. A malta ia para lá já um bocadinho obrigada.

No 16 de Março qual foi a sua intervenção?

A15 de Março, à noite, acompanhei o major Monge e o tenente-coronel Casanova
Ferreira ao Regimento de Cavalaria 7 para conseguirmos que o comandante alinhasse
connosco e com o anuimento do general Costa Gomes.

Ele acompanhou-os?

Não. Manteve-se firme e não acompanhou.

E depois?

Quando regressávamos capotámos em Monsanto. Endireitámos o carro, era um mini, e
o Casanova Ferreira disse que ele e o Monge seguiam para as Caldas e eu fiquei de ir lá
ter quando conseguisse transporte. Mas não consegui e não fui.

E no dia 25 de Abril o que é que faz?

Arranjei um grupo de comandos, oficiais e sargentos e algumas praças, éramos para aí
uns 15 a 20 militares. Fomos ter com o Otelo que nos deu como missão: prender três
comandantes de unidades. Mas não fui buscá-los por uma razão muito simples:
vigiámos a casa dos três e estava tudo muito calmo.

Era difícil intervir sem provocar um grande alvoroço que poderia denunciar que alguma coisa se estava a passar. O que fez então?

Fui para o Terreiro do Paço e esperei pela coluna de Santarém. Ainda vi o buraco por
onde fugiu o ministro do Exército para o edifício da Marinha. Entretanto, veio o
Salgueiro Maia e aí tive o meu primeiro choque. Quando estamos no meio da placa
central, chega uma série de malta da Margem Sul, com bandeiras que dizem 'Nem mais
um homem para África', 'Abaixo o fascismo".

E eu interroguei-me: isto foi feito com tanto secretismo e já há bandeiras?
Está a dizer que havia uma articulação com o PCP?

Tinha que ser, era o único partido organizado e nós éramos uma cambada de inocentes.

Quando vê as bandeiras e os civis o que pensou?

Que estávamos a ser enganados.

E a seguir o que fez?

Segui para a Penha de França para ocupar o quartel. Cheguei ao portão principal e saiu
de lá um gajo alto com uma pistola que me diz: 'Senhor major para entrar aqui só por
cima do meu cadáver'. E eu disse: 'Por cima de quê? Oh amigo, vai-te embora que eu
não brinco com essas coisas'.

E ele foi?

Foi.

E depois de tomar o quartel da Penha de França?

Fiquei nessa noite no quartel e no dia seguinte recebi ordens para ir com esse pessoal e
o de uma companhia da EPI de Mafra para a Academia Militar. Fiquei lá sediado e
fomos uma espécie de bombeiros. Deram-me mais carros de combate para uma força
dissuasora e eu passei até ao dia 4 de Julho permanentemente a resolver problemas.

Quais problemas?

Levei os presos do Limoeiro para o Linhó em chaimites, iam seis de cada vez. Quando
cheguei ao Limoeiro os presos disseram que só me recebiam a mim. Entrei lá para
dentro sozinho. Estavam todos no refeitório e eu perguntei o que é que eles queriam.
Queriam contar a história deles. Fui buscar quatro escriturários e disse: 'Cada um conta
a sua história e eu levo-as e entrego ao ministro da Justiça. Querem?'
Quiseram e estive lá até às cinco da manhã. Depois, como a GNR e a PSP tinham
perdido toda a força, as pessoas em Lisboa queriam vingar-se e fechavam os polícias
nas esquadras e eu tinha que lá ir libertá-los

De quem recebia ordens?

Recebia ordens do Costa Gomes - conhecia-o bem, tinha estado com ele em
Moçambique, quando era comandante militar e eu estava nos Comandos - e recebia
ordens do Spínola. E o Spínola chamou-me a 29 ou a 30 de Abril e disse-me: 'Vais ao
aeroporto esperar o dr. Álvaro Cunhal com todo o pessoal, com toda a honraria; recebeo como deve de ser e vais trazê-lo para aqui'.

Já tinha ouvido falar do Cunhal antes do 25 de Abril?

Já, mas pouco. Ele não estava cá.

E depois o que se seguiu?

Cumprimentei-o e disse-lhe que tinha ordens do general Spínola, que pedia para me
acompanhar para o levar ao palácio da Cova da Moura. E quando íamos a sair aí é que
eu tenho um espanto.

Porquê?

Porque olho para trás, quando estávamos a chegar à Segunda Circular e vejo os carros
militares todos cheios de gente com bandeiras vermelhas e aí eu disse: 'Estou fod..'.
Dei ordens pelo rádio para os meus homens terem calma e não mexerem nas armas.

Uma grande tensão?

Foi pior de outra vez. O Costa Gomes disse-me para eu ir buscar um cubano, o célebre
capitão Peralta, que estava no hospital da Estrela e que os gajos da extrema-esquerda
queriam tomar o quartel para o tirarem de lá. Perguntei-lhe se podia usar de todos os
meios. Só ao fim de meia hora é que escreveu a meu pedido uma ordem, mas frisando
que só em caso extremo podia usar as armas. Lá fui e, pela primeira vez na minha vida,
assustei-me e vi-me aflito.

O que se passou?

É que quando eu dou a volta no Largo da Estrela vejo um mar de gente, e os malandros
de repente atiram-se todos ao chão e não me deixam andar. Eu vou devagarinho e vi os
gajos à minha frente a fazerem amor...Tive que andar a levantá-los um a um e lá
consegui encostar os carros todos ao fim de duas horas. Sei lá o que eu fiz mais... Fui
para a TAP 12 dias para os pôr a trabalhar, fiz uma série de coisas.
Um dia disse que “o abandono de África é o pior legado da revolução de Abril'.

Se tivesse percebido antes tinha participado?

Tinha sérias dúvidas. Não sou defensor da descolonização possível de Mário Soares.
Pensei sempre que nós devíamos controlar daqui. Era contra o Portugal uno inalienável
e indivisível. A Guiné estava a perder-se. Eu dizia para se deixar a Guiné e agarrar
Angola e o pessoal que estava na Guiné ia para Moçambique, que também estava mal.

A sua posição era de que o processo de independência devia ser lento e controlado por
Portugal?

Sim, controlado por nós, a nossa tropa controlava.

E na altura havia condições políticas para isso, com enormes manifestações a gritarem
'Nem mais um soldado para as colónias'?

Vamos lá a ver... Se cá tivessem tomado medidas, tínhamos agarrado o processo. Não
fizemos nada, pelo contrário. Houve toda uma técnica que ninguém esperava que se
notasse.

Qual?

Quando colocaram os cravos nas armas não foi por acaso.

Porque foi então?

Para as neutralizar. Eu nunca deixei que o fizessem para poder empregar todos os
meios.
Mas havia medo que, caso os militares utilizassem a força, os civis se revoltassem...
Há maneiras de o fazer. Lembro-me que já estava nos Comandos e os deficientes foram
sequestrar o Governo manifestando-se em cadeiras de rodas. Esqueceram-se que havia
quem fosse mais esperto do que eles. Eu fui num jipe civil e vi a manifestação. Fui ter
com os meus condutores das duas companhias de Comandos e disse: 'Vamos descer em
segunda e quero o máximo de rateres'. Eles não eram nada deficientes e, quando viram
as chaimites, levantaram-se e desataram a correr. Largaram tudo.

Largaram as cadeiras de rodas?

Largaram tudo. Eu carreguei duas camionetas com as cadeiras de rodas e as próteses
para a Amadora. Fiz um aviso na rádio a todos que as quisessem. Em 15 minutos
levaram tudo.
É sabido que foi crítico do caminho que o processo tomou.

Para si quem foram os responsáveis?

O general Spínola foi o grande responsável, quando resignou em Setembro e foi para lá
o Costa Gomes...A desilusão foi muito grande. Eu, volta e meia, ia a Belém; ele
chamava-me. E quando se falava no Partido Comunista ele dizia para se falar baixo.
Quando começaram os problemas com Otelo eu disse: 'Oh meu general prenda-se o
Otelo'. E ele logo: 'Fale baixo'. Ele tinha medo. Quando foi a chamada 'manifestação
silenciosa' ele foi-se embora porque teve medo.

Mas no 11 de Março Spínola não tentou aliciá-lo?

Tentou. Ele no 11 de Março telefonou-me ao meio-dia, e perguntou se eu já tinha a
minha missão. Respondi-lhe que não tinha missão nenhuma.

Naquela altura o que mais o marcou?

Foram as grandes manifestações que aconteceram em Lisboa porque nós não estávamos
preparados para isso.

Mas receou o quê?

Não sabia como resolver aqueles problemas. Por exemplo, o MRPP punha os
'borrachos' à frente e elas metiam-se com os soldados. 'Oh filho e tal...'. Tentavam
seduzi-los e a malta fraquejava. Foi a primeira vez que a tropa enfrentou manifestações
de civis.

Nessa altura, em que já tem reservas sobre o curso das coisas como eram as relações
com os seus companheiros de armas?

Com o Costa Gomes fazia faísca, porque ele era um homem diabólico. Veja só o
percurso dele. É condecorado em Angola com a mais alta condecoração da PIDE em
1973, o único militar que eu conheço; e um ano depois, em 1974, virou à esquerda. Tive
reuniões com os militares do COPCON e o Otelo tinha este país na mão. Mas era um
homem sem coerência e houve uma altura que se convenceu que era bonito e sedutor. O
COPCON chegava a ter à entrada uma bicha de mais de 1.000 pessoas. Um dia
perguntei a uma senhora onde ia. E ela disse: 'O general Otelo prometeu-me um
apartamento'. Eu chegava lá dentro e dizia: 'Oh Otelo, como é que tu fazes isso? Para
onde é que queres levar este país?'.

E como foi o seu relacionamento com Vasco Gonçalves?

Falei só para aí duas vezes com ele. Encontrei-o em Belém no dia 20 e tal de Novembro
de 1975 porque o Costa Gomes tinha-me mandado chamar. Encontrei-o no corredor e
ele começou a gritar pelos guarda-costas. Eu ri-me.
Mas havia uma grande desconfiança em relação a si por ser mais conotado com a direita
do que com a esquerda.
Costumo dizer: nasci em 1936 e formei-me em 1956. Nós militares, infelizmente,
éramos politicamente muito mal preparados, mas éramos todos muito parecidos. Depois
surgiram uns que diziam que eram de esquerda. Mas olhe, esses gajos que se rotularam
de esquerda eram uma - como militares.

Todos?

Bem, todos não.
Chegou a ser saneado dos Comandos.
Foi no dia 31 de Julho de 1975. Nesse dia tudo estava muito agitado porque tinha
chegado a 6.a Esquadra americana. Eu cheguei à messe dos sargentos e perguntei o que
se passava: 'Meu major é que vem a 6.a Esquadra para conquistar isto', disseram-me. E
eu disse: 'Vocês são parvos, não vem nada'. Às 10 horas da noite fui-me deitar, eu
morava na Reboleira, mas pressentia que ia acontecer alguma coisa. Às quatro da
manhã toca o telefone e alguém diz: 'É do PSD da Amadora. O Partido Comunista
tomou o seu quartel e eu estou-lhe a oferecer duzentos homens mas precisamos de
armas'. Perguntei quem falava e ele disse que não podia dizer e desligou. Logo a seguir
liga-me o meu 2.° comandante, major Lobato Faria, que diz que estava preso, mais um
grupo de oficiais sargentos. E diz que os ocupantes lhe tinham pedido para me informar
de que já não era o comandante. Eu tinha um Ford amarelo que me tinham emprestado.
Cheguei ao pé do quartel, parei o carro e fui a pé e fiquei à Porta de Armas. Estavam
duas chaimites a trancarem a entrada com mecânicos lá dentro. Dizem-me que eu já não
sou o comandante e que estavam à espera do Otelo que nessa noite tinha chegado de
Cuba, e que também vinha o Vasco Lourenço que, entretanto, chegou mas não o
deixaram entrar. E eu a assistir àquilo tudo. Chega o Otelo, está lá um minuto e dezoito
segundos a falar com quatro militares. Eu disse-lhe que queria que fossem libertados
todos os que estavam presos.
Fui com os meus militares para o Estado-Maior do Exército reconstituir o que se tinha
passado. O Otelo julgava que lhe iam entregar o quartel de bandeja, mas esqueceu-se
que o Partido Comunista já tinha tomado conta do quartel. E então ele pensou que entre
o PCP e o Jaime Neves preferia-me a mim, e foi-me buscar.

Esteve saneado quanto tempo?

Três dias. Fui a um plenário a que o Otelo foi, no Regimento de Comandos, e os furriéis
que tinham participado na ocupação foram ao palco e disseram que tinham estado com o
Álvaro Cunhal que lhes prometeu e às famílias que lhes pagava transportes, que lhes
pagava tudo, se algo corresse mal. Isso ficou no auto.

Colocou alguma vez a hipótese de sair do país antes do 25 de Novembro?

Nunca. A única coisa que defendi, como militar, para o 25 de Novembro, foi a hipótese
de sair de Lisboa, ir para Rio Maior porque os Comandos tinham as rádios e os jornais
diariamente contra nós e militarmente estávamos praticamente isolados. Éramos
bombardeados de manhã à noite. Civis e militares chegaram a ir ao quartel ameaçar-nos.
À segunda vez tracei uma linha na estrada e disse que abria fogo sobre o primeiro que a
passasse. Nunca mais ninguém passou. A maior parte da malta com um berro
desaparecia.

Quando foi contactado para a hipótese de fazerem um golpe de estado?

Durante o Verão 1975 havia reuniões com militares. Estavam o Eanes, Rocha Vieira,
Tomé Pinto, Garcia dos Santos, Gomes Mota, Firmino Miguel e mais alguns civis, entre
os quais o Henrique Granadeiro que foi chefe da casa civil do Eanes.

E reuniam-se onde?

Em qualquer sítio. A primeira vez foi em casa do Melo Antunes, outra por cima do
restaurante Galeto, em Lisboa.

Na altura tinha informação sobre estar em preparação um golpe de direita?

Não me lembro de ouvir falar da possibilidade de um golpe da direita porque nós
controlávamos tudo. Além disso, os únicos homens de direita de que tínhamos
conhecimento que poderiam ser operacionais eram o Alpoim Galvão e mais uns que, no
Norte, estavam com o cónego Melo. Nós conhecíamo-nos todos, éramos camaradas,
éramos militares.

Todos sabiam o que todos andavam a fazer?

Sim. Nós sabíamos que aquela direita nunca avançaria contra nós. Não era uma
preocupação.
Mas tudo aconteceu no dia 25 de Novembro porque houve a ocupação pela esquerda
militar das bases de Tancos...
Exactamente. Estávamos já preparados. Mas foi uma resposta. Eu estava preparado com
o regimento há uma semana. Tinha as viaturas carregadas com munições e com comida.
O que se passou quando foi tomar a Polícia Militar? Houve aí um problema...
Houve. Quando vou a passar na Calçada da Ajuda, vem um tenente-coronel a correr de
dentro do palácio de Belém que me grita: 'Oh pá, o Costa Gomes deu ordens e a Polícia
Militar vai render-se'. E eu disse-lhe: 'Oh pá, eu não posso fazer nada porque o meu
comando deu ordens para avançar e eu estou atrasado 10 segundos'.

Quem era na altura o seu comando?

Era o Eanes e os outros oficiais que já referi.

E depois o que aconteceu?

Eu sigo para cima e quando vou a passar à frente de Cavalaria 7, estava lá a recruta,
fomos atacados. Apeámo-nos rapidamente. Dois dos meus homens estavam mortos e o
meu pessoal queria matar duzentos. Tive que andar aos pontapés ao meu pessoal para
não dispararem. Eles só choravam. Olhe que durante anos, quando fazíamos manobras
militares, em qualquer terra onde chegávamos as pessoas diziam-me: “Você é que o
culpado disto porque não matou os gajos todos da Polícia Militar”.
E eu respondia: 'Olhe lá, e se estivesse o seu filho na Polícia Militar, não estaria a falar
comigo agora aqui'.

A partir do 25 de Novembro deixa de ter intervenção?

Sim, só me dedicava à vida militar. Fico nos Comandos até passar à reserva em 1981.
Tinha estado na Índia na primeira comissão. Estive em Moçambique pela primeira vez
em 1959. Em 1962 fui para Angola até 1964; depois vou logo para os Comandos.
Regresso a Angola em 1965 e em 1966 mudam-me para Moçambique, fiquei lá mais
um ano e meio. Em 1968 regresso e em 1970 volto para Moçambique com uma
companhia de Comandos, depois de ter estado cerca de cinco meses em Angola. Sou
promovido a major em 1972 e fico em Moçambique até Dezembro de 1973.

África marcou-o muito?

Sim. Em 1973 cheguei a dizer ao meu pai que ficava em África. Eu gostava daquilo,
sentia-me realizado.

Como responde à polémica que surgiu com a sua recente promoção a general?

Não respondo, mas há uma coisa que tem de ser dita: esta raiva que o Vasco Lourenço
despeja em cima de mim, sempre que pode, tem duas origens. Primeiro, ele tem uma
verborreia crónica; ele tem de pronunciar-se de vez em quando. Segundo, há uma coisa
que ele não esquece: em 1975 eu disse no regimento que a ele nem para cabo o queria e
pedi desculpa aos cabos. Ele não tinha categoria nenhuma...

Nasceu em Vila Real e seguiu a carreira militar porque era mais económico?

Sim, mas quando acabei o sétimo ano candidatei-me à Academia Militar e, como
alternativa, também a Medicina na faculdade do Porto. Fui chamado primeiro para a
Academia e lá fui.

E alguma vez pensou que a sua carreira militar ia levar este rumo?

Não, nunca me passou pela cabeça.

E alguma vez parou para pensar na volta que sua vida levou?

Nunca me arrependi, pelo contrário.

Por que foi trabalhar com Jorge de Brito quando saiu dos Comandos ?

Conheci-o quando ele esteve preso e tentei dar-lhe uma ajuda. Depois passei a dar-me
com ele e trabalhámos juntos durante 12 anos.

A fazer o quê?

Ao Jorge de Brito arrolaram-lhe todos os bens, que eram muitos, e eu fui director
daquele património. Aquilo estava tudo ocupado. Eu pus aquilo na ordem, despedi uns e
bati noutros...
A seguir criou uma empresa de segurança, a 2045...
Sim, éramos seis sócios. Continua a trabalhar e tem três mil homens.

Julgo que agora já estará mais regrado quanto ao whisky e ao prazer pela comida?

Eu gostava de beber uns copos, mas numa noite bebia apenas três whiskies. Era só gelo.

Um refresco?

Ora muito bem...isso mesmo. Nunca me embebedava e nunca permiti que me
oferecessem um whisky.

Gostava da noite?

Gostava. A noite é um mundo excepcional, fazem-se amigos, inimigos, faz-se tudo.
Na vida fez alguma coisa de que se arrependeu?

(Longo silêncio) Não tenho veleidades de dizer que fiz tudo bem, mas não me ocorre
nada de especial.

Entrevista por Jerónimo Pimentel.



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