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RECONHECIMENTO DE INVALIDEZ A PAULA MARTINHEIRA.

Para: Todos os que concordarem em lutar contra esta aberração

Esta petição tem como propósito alertar para a injustiça de que Paula Martinheira está a ser vítima.

Muitos de nós conhecemos a Paula, o seu indubitável sentido de responsabilidade, a sua competência e espírito de sacrifício, os quais se aliaram muitas vezes a experiências de trabalho voluntário.

Por favor, agradecia que aqueles que não estão a par desta injustiça gritante, leiam o testemunho da própria Paula e que é apresentado a seguir.

Grata pela vossa colaboração

Cumprimentos

Raquel Vázquez Oliveira


"PROCURO TRABALHO
Condições oferecidas

Caminho devagar e num raio de ação restrito com a ajuda de um foot up
Não posso estar de pé mais do que 20 minutos
Tenho perturbações na fala
Falhas de memória
Problemas de concentraçãp e atenção
Falta de força muscular
Dificuldades na escrita
Incapacidade de conduzir
Alguma desorientação em transportes públicos

Sobre mim:
53 anos
Elevado sentido de responsabilidade
Empenhada, paciente e resiliente
Assertiva
Simpática e empática
Boa pessoa

No dia 26 de Março de 2016 entrei em colapso: tromboembolismo pulmonar (TEP) maciço, seguido de enfarte e três paragens cardíacas (a designação médica é bem mais complicada, pelo que traduzo o que aconteceu em miúdos). Do hospital da Póvoa de Varzim, fui transferida para a unidade de Cuidados intensivos do Hospital de São João, no Porto, onde estive em coma ligada a uma máquina (ECMO). Na consulta de follow up realizada há pouco temp0 neste último hospital, os médicos contaram-me que dois cenários eram previsíveis nessa altura: poderia não sobreviver ou, se sobrevivesse, ficaria em estado vegetal. Nem um nem outro se concretizaram felizmente. Fui depois transferida para a unidade de cuidados intermédios do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos e, mais tarde, para o Centro de Reabilitação do Norte em Gaia, tendo em vista a "reabilitação neuromotora e funcional da doente com sequelas de encefalopatia anóxica e neuromiopatia".
No dia em que entrei, de cadeira de rodas e sem qualquer autonomia, a não ser para comer, na consulta inicial de avaliação, perguntei à médica fisiatra que me acompanhou se iria voltar a trabalhar. O "nem pensar!" taxativo que me respondeu destroçou-me. "Agora, tem de pensar na sua reabilitação. Temos muito trabalho pela frente. Foque-se nisso e esqueça o trabalho. sabe, é que ficaram sequelas.."...Como boa aluna que sempre fui, desenvolvi, a partir desse instante, um trabalho árduo que extravasou o espaço dos ginásios. Ia ara o quarto e tentava fazer push up na cadeira de rodas, vestir-me sozinha, pegar nos medicamentos, levantar-me da cama, secar o cabelo Uma, duas, três infinitas vezes. Tinha dos grandes objetivos em mente: recuperar o andar e livrar-me da cadeira e voltar a dar formação, a profissão que abracei há quatro anos e que é a minha grande paixão. "Ao longo do internamento verificou-se uma evolução favorável do quadro neuromotor e psicoemocional, da comunicação e da funcionalidade dos domínios alterados", refere o relatório de alta médica.. É verdade, voltei a casa pelo meu próprio pé, sem depender de ninguém. Objetiivo cumprido. Porém, o segundo propósito desta minha grande batalha não foi nem está a ser concretizado, infelizmente: não posso dar formação. Por vários motivos: O meu estado geral não me permite estar muitas horas em pé, tenho ainda muita dificuldades na articulação das palavras e na parte respiratória que sustenta a fala, tenho graves falhas de memória e problemas de concentração, atenção e cálculo mental, canso-me muito nas tarefas mais básicas, como por exemplo, fazer uma simples cama, a minha escrita foi afetada devido a falhas, ainda não superadas, de coordenação motora e motricidade fina e sobretudo não posso conduzir devido à lesão "muito grave do nervo peroneal esquerdo", que me impede de levantar e rodar para a esquerda o pé e mexer os dedos". Caminho com o auxílio de um foot up, muto devagar e concentrada no andar e no solo. Todos os que me conhecem e que acompanharam o meu percurso de vida sabem que comecei a trabalhar assim que terminei a minha licenciatura em Comunicação, em 1985, com 22 aninhos. Fui jornaiista da Agência Lusa e durante mais de vinte anos do Diário de Notícias. Em 2011, o jornal rescindiu comigo, atirando-me para o desemprego. Não fiquei parada. Pedi ao centro de emprego para fazer um programa operacional e em boa hora fui destacada para a secretaria do Agrupamento de Escolas Cego do Maio. Antes, passei pela área imobiliária. Ambas as experiências foram altamente enriquecedoras, mas também me obrigaram a ponderar sobre o que gostaria de fazer realmente na vida, em termos profissionais. Fui empreendedora de mim mesma, estudei e tornei-me formadora. UAU!! Que felicidade dar aulas de formação profissional! Que prazer conhecer pessoas e transmitir-lhes saberes, contar-lhes histórias, ajudá-los a superar obstáculos e ir à luta com mais ferramentas! Os meus formandos sabem do que estou a falar. Que tristeza, que dor, que mágoa sinto por não poder mais ir para Barcelos, Vila do Conde, Braga, Lousada Porto, dar formação! Como sabem, o meu quotidiano não me permite mais do que ir à ifisioterapia, terapia da fala e hidroginástica todos os dias, e às terças e quintas às aulas na minha querida Universidade Sénior. Consultas e exames no Pedro Hispano. onde não posso ir sozinha, também fazem parte das minhas rotinas.
Esta lenga lenga toda, perguntarão vocês, para transmitir o quê? Desde o dia 26 de Março que não trabalho e por isso não ganho. Nesta minha nova profissão, trabalha-se sem rede. Sem remuneração mensal nem quaisquer outras regalias. Trabalha-se a recibos verdes, as despesas de deslocação e a manutenção dos carros dos formadores são por conta deles, não existe subsídio de alimentação, tem de se pagar segurança social e IVA. Não tive direto a subsídio de doença, muito embora estando de baixa. Desde finais de Março, vivo então de quê? DE NADA! No início de Junho, os serviços de assistência social do centro de reabiltação de Gaia, enviaram á Segurança Social o pedido da minha reforma por invalidez. Fui chamada para uma avaliação médica (a chamada junta médica) no dia 15 de Julho. Nessa suposta avaliação, que durou pouco mais de dez minutos, a médica (uma médica) tentou aferir sobretudo a vida pessoal, profissional e financeira do meu companheiro. O que faz, quanto ganha, que despesas tem, quanto é que pagamos de renda, água, gás, casa, carro, quantos filhos dos primeiros casamentos, se paga ele pensão de alimentos, se eu recebo, quanto é que ganhava como formadora e como jornalista...A parte clínica resumiu-se a: "tem um pé pendente? Deite-se na marquesa e deixe-me ver! Ah, de facto não mexe!". Pesou-me : "60 quilos é muto pouco. Tem que engordar!. Pode ir. Pergunte ali à menina quando é que deverá receber a notifioação da decisão!." Next!. "A menina garantiu-me que "lá para finais de Setembro, princípios de Outubro, receberá a carta".
Desde esse dia que espero ansiosamente a mesma. Porque a minha vida tem estado, obviamente, em standby. O meu companheiro tem suportado estoicamente as despesas de uma casa e o meu pai tem ajudado nas despesas de terapias, consultas, exames, medicamentos...
Na quarta-feira, dia 16 de Novembro, chegou à minha caixa de correio (nem sequer foi registada) a tão esperada carta, datada do dia 17 de Outubro. que ditou a minha sentença e traçou o meu futuro. "Informa-se que a Comissão de Verificação de Incapacidades Permanentes, por deliberação de 2015/09/05, considerou que V. Exa. não reúne as condições de incapacidade permanente, determinadas da atribuição da pensão de invalidez relativa (....). Poderá , no prazo de 10 dias a partir da data de receção deste ofício, requerer novo exame por comissão de recurso (...)". Assim: fria e secamente.
Posto isto, nova luta que terá um final previsível lá para Fevereiro, Março, segundo informação da segurança social onde, curiosamente, me aconselharam, há duas semanas atrás, a ir "pedir comida ao refeitório da Beneficiente", uma IPSS da cidade onde vivo....
THE END

Paula Martinheira, uma quase indigente...

P.S. Desculpem o desabafo"



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Esta petição foi criada em 18 novembro 2016
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