Petição para um debate sobre as garraiadas nas festas da cidade de Alverca
Para: Presidente da União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e do Sobralinho; Presidente da Assembleia de Freguesia de Alverca do Ribatejo e do Sobralinho
Ao senhor Presidente da União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e Sobralinho
À mesa da Assembleia de Freguesia de Alverca do Ribatejo e Sobralinho
Nos últimos anos, os alverquenses têm assistido à inclusão de garraiadas no programa das Festas da Cidade, realizadas anualmente. Muitas foram já as tentativas, quer a título individual quer por parte de grupos organizados como partidos políticos, para fazer deste assunto um tema de debate na nossa cidade, sem que esses esforços tenham dado origem a uma discussão ampla, razoável e consecutiva.
Os mesmos argumentos têm sido utilizados em resposta àqueles e àquelas que declaram a sua discordância com a prática de garraiadas na nossa freguesia: argumentos como a existência de uma tradição ou como a livre escolha de assistir ou não assistir à actividade têm sido repetidos como se a sua repetição encerrasse o assunto e fizesse desta prática uma manifestação de liberdade e democracia. Esta petição serve, neste sentido, para abrir um debate que deve ser prosseguido noutros meios, plataformas e fóruns, com a participação dos alverquenses, servindo também para introduzir argumentos com os quais os assinantes da presente petição concordam.
Uma qualquer tradição tem apenas o valor que lhe quisermos dar. Todas as sociedades têm a tendência natural de evoluir e as práticas dos povos evoluem ao ritmo que as mentalidades se alteram num sentido ou noutro. Algumas tradições foram e são usadas, um pouco por todo o mundo, como argumento para práticas que ofendem a integridade ou a inteligência humana, e mesmo para legitimar de alguma forma violações de direitos humanos ou crimes contra a Humanidade. Os costumes dos povos não se encontram escritos na pedra: a História faz-se a cada dia e os cidadãos devem ter a liberdade de construir o seu futuro sem que a continuação do passado seja imposta sem discussão. Cada dia é um novo dia e em democracia nenhum assunto pode estar isento de discussão e de transformação.
A nossa sociedade tem evoluído no sentido do maior respeito pelo ambiente e, em concordância, com as espécies animais que partilham do nosso meio envolvente. Da mesma forma que as sociedades têm rejeitado, por razões hoje quase consensuais, qualquer tipo de prática violenta contra seres humanos, também os povos são hoje mais intolerantes perante práticas violentas contra animais, sobretudo quando essas práticas têm como único objetivo o entretenimento de seres humanos, sem qualquer outra utilidade prática. Embora as garraiadas na nossa cidade não incluam a utilização de farpas ou outros objetos perfurantes, não admitimos a violência psicológica sobre um animal como uma forma de entreter pessoas.
Isso explica que outras sociedades e comunidades rejeitem hoje tradições de que antes se orgulhavam. A respeito da tauromaquia, lembramos o exemplo de França, onde recentemente todas as referências à tauromaquia foram retiradas das listas de Património Cultural Imaterial francês.
Consideramos que, perante outras formas lúdicas e culturais à disposição da sociedade, estes actos não dignificam o Homem. Ademais, outras tradições ribatejanas que não envolvem qualquer tipo de violência, como a arquitectura, a música, os trajes, os movimentos sociais ou mesmo a conservação da paisagem, não têm sido promovidas e protegidas pela autarquia ao nível que a tauromaquia tem sido.
Nas festas da vila do Sobralinho, recentemente incorporada na nossa União de Freguesias, as garraiadas nunca foram incluídas, sendo utilizado o argumento de que não existe tradição nesse sentido. Os assinantes desta petição concordam que também na cidade de Alverca essa tradição tem sido introduzida por vontade política nos últimos anos, não existindo na identidade da nossa comunidade.
Apesar da geografia e da toponímia, Alverca não partilha de muitas das características culturais do Ribatejo. Alverca começou a ganhar a sua actual dimensão urbana há poucas gerações, com movimentos migratórios que trouxeram até este espaço populações de outras áreas geográficas do nosso país, com diferentes identidades culturais, em busca de emprego no sector industrial. Mais tarde, a proximidade e a facilidade de acesso a Lisboa fez Alverca crescer com populações que vivem viradas para Lisboa e muitas vezes de costas viradas para o Ribatejo. A identidade de Alverca é marcadamente industrial e urbana: ser o berço da aviação em Portugal é algo que satisfaz a identidade dos alverquenses. A maioria dos alverquenses sente pouca ligação com aquilo que é mais ribatejano, pois a grande maioria tem raízes familiares noutra parte do país.
Os assinantes desta petição pretendem reiterar a sua discordância perante a prática sistemática de garraiadas nas festas da cidade. Rejeitamos que dinheiros públicos sejam despendidos numa manifestação cultural violenta, pouco civilizada e com a qual a grande maioria da população não se identifica. Realçamos a nossa vontade para que os dinheiros públicos sejam orientados para a promoção de uma estratégia cultural que esteja à altura de uma cidade moderna como Alverca. Numa cidade e num concelho onde a oferta cultural é baixa e pouco diversificada, não concordamos com a afirmação da tauromaquia como forma de entretenimento municipal.
Exigimos que este assunto seja debatido amplamente na nossa cidade, ouvindo os cidadãos e especialistas no assunto, para que todos possamos, em consciência e com dados, decidir sobre o nosso futuro sem que o passado nos impeça de pensar como seres humanos do século XXI. A população de Alverca deve ser chamada a decidir sobre a realização, ou não, de garraiadas nas suas festas.