Contra os estágios não-remunerados
Para: Ex.mo Presidente da República, Ex.mo Primeiro-Ministro, Ex.mos Deputados da Assembleia da Republica, Jovens Portugueses
O princípio fundamental da economia alerta-nos para o facto de não haver almoços grátis. O trabalho, o esforço, o suor despendido em cada tarefa que acrescenta valor a um produto ou empresa, deve ser remunerado. Não apenas por uma questão moral, mas acima de tudo por uma questão de justiça e de bom funcionamento do mercado de trabalho. Se um empregador pretende o máximo de dedicação possível por parte do trabalhador tem, necessariamente, que o motivar - já que o elogio não paga as contas - com a moeda de troca do mundo moderno, o dinheiro! ?É errado que se aproveitem da necessidade que os jovens têm em ganhar experiência, para poderem aumentar os lucros de uma empresa com trabalho pro-bono. É por esta incongruência no pensamento economicista vigente que apelo à revolta, à contestação de todos aqueles que hoje pagam para trabalhar durante meses, alguns até durante anos, apenas por uma questão de futuro. Não aceitem o argumento de que é necessário pagar no início para recolher os frutos mais à frente no tempo. Quando, na verdade, todos aqueles que têm curso superior já pagaram durante três anos - no mínimo -, sendo que hoje em dia o normal seja estenderam o tempo de pagamento por mais dois anos, com pós-graduações, mestrados ou doutoramentos. Quando, na verdade, o trabalho de hoje não garantirá um salário chorudo no futuro. Não nos rebaixemos perante o argumento da experiência, apresentemos antes os resultados concretos e objectivos de um mês de dedicação, reclamemos o mérito pelo acréscimo de valor com que brindámos o nosso empregador.
De quem será a culpa? Será dos senhores do dinheiro, que se reúnem anualmente no tão badalado Clube Bilderberg que, segundo os adeptos das teorias da conspiração, governam o mundo através da manipulação subtil? Ou será nossa, de todos os jovens que compactuam com este tipo de escravatura moderna com receio de ficarem afastados do mercado de trabalho no futuro?
Está na hora de dar um murro na mesa e reclamar a dignidade que nos vem sendo roubada sob o falso pretexto da inevitabilidade do trabalho não-remunerado no início da carreira profissional.
Porque cada gota de suor que nos escorre pela face terá que ser, inevitavelmente, reposta no futuro. Porque a água custa dinheiro e o ar não alimenta. Porque fazemos parte da geração mais bem preparada deste país, porque também merecemos dignidade, e porque o tempo da escravatura já faz parte do passado. Está na altura de nos unirmos e, em uníssono, lançarmos o grito do Ipiranga.
Juntemo-nos todos contra este tipo de escravatura moderna. Não nos calemos!
Acabemos com os estágios não-remunerados de uma vez por todas.. Pela juventude, pelas gerações vindouras, por Portugal!
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