Petição pela Expulsão de André Taqueiro da Vila de Cernache por Ocultação das Suas Raízes e Exercício de Dupla Identidade Social
Para: Exma. Senhora Presidente da Junta de Freguesia de Cernache
PETIÇÃO POPULAR PARA A REVOGAÇÃO DA CIDADANIA CERNACHENSE DE ANDRÉ TAQUEIRO, ALIAS “ANDRÉ DA CELESTE”, E CONSEQUENTE REPATRIAMENTO ADMINISTRATIVO PARA A FREGUESIA DE CEIRA
Exma. Senhora Presidente da Junta de Freguesia de Cernache, Dra. Marta Ferro,
Os abaixo-assinados, cidadãos da mui nobre Vila de Cernache, antigos colegas de escola, companheiros de copo, testemunhas de crimes contra o bom senso e sobreviventes das Festas de Nossa Senhora dos Milagres, vêm requerer a Vossa Excelência a instauração urgente de um processo de revisão da nacionalidade cernachense do cidadão:
André Taqueiro
conhecido em Cernache como André da Celeste;
conhecido em Coimbra como André Silva;
conhecido pela comunidade científica como “o Caso”.
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CAPÍTULO I — DAS ORIGENS
Existe em Cernache uma irmandade cujas raízes mergulham profundamente nos recreios da escola primária, consolidando-se ao longo dos anos de colégio entre o quinto e o décimo segundo ano.
Ao contrário da esmagadora maioria dos grupos de amigos portugueses, que sucumbem perante universidades, casamentos, filhos, hipotecas e grupos de WhatsApp silenciosos, esta confraria sobreviveu.
Sobreviveu a tudo.
Somos diferentes entre nós:
* há quem faça desporto por prazer;
* quem trabalhe demasiado;
* quem desapareça durante meses e reapareça como se tivesse ido comprar tabaco;
* quem tome decisões discutíveis às quatro da manhã;
* quem continue a achar que “só mais um fino” é uma unidade de medida objetiva.
E depois existe o André.
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CAPÍTULO II — DAS FESTAS DOS MILAGRES
Durante as Festas de Nossa Senhora dos Milagres, este grupo entra num estado de exceção social e fisiológico.
Durante aproximadamente cinco dias:
* o conceito de horário desaparece;
* as refeições tornam-se sugestões;
* o sono assume um papel meramente decorativo;
* e os finos passam a integrar oficialmente a roda dos alimentos.
Foi neste contexto que se escreveram histórias que não podem ser reproduzidas neste documento por razões legais, familiares e laborais.
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CAPÍTULO III — DO ANDRÉ DA CELESTE
Quando se encontra em Cernache, André apresenta todas as características típicas do homem da terra:
* bebe finos até ao encerramento das reservas estratégicas nacionais;
* aceita vinho de pacote sem julgamento moral;
* considera que um penalty digno desse nome deve incluir obrigatoriamente bagaço;
* distribui abraços, beijos e declarações de amor aos amigos com uma frequência incompatível com a masculinidade tóxica tradicional portuguesa.
É um dos nossos.
Ou pelo menos julgávamos que era.
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CAPÍTULO IV — DO SURGIMENTO DE ANDRÉ SILVA
As investigações levadas a cabo ao longo dos últimos anos permitiram concluir que, ao atravessar determinados limites administrativos do concelho de Coimbra, ocorre uma transformação profunda.
O cidadão André da Celeste desaparece.
No seu lugar surge:
André Silva
Um homem que:
* consome exclusivamente bebidas brancas;
* utiliza palavras como “conceito”, “experiência” e “curadoria”;
* aparece sempre vestido como se estivesse a caminho da inauguração de uma galeria de arte contemporânea;
* publica fotografias cuidadosamente editadas no Instagram;
* assume a postura de um misto entre foodie, geek e embaixador informal da sofisticação coimbrã.
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CAPÍTULO V — DA DUPLA VIDA DIGITAL
No Instagram do André Silva existem cocktails.
Existem pratos cujo nome contém mais palavras do que ingredientes.
Existem sunsets.
Existem fotografias em preto e branco.
Existem ângulos estudados ao milímetro.
Por outro lado, os momentos vividos em Cernache são remetidos para o obscuro submundo da funcionalidade:
“Só para Amigos Chegados”
Como se as Festas dos Milagres fossem um segredo de Estado.
Como se os finos fossem incompatíveis com o algoritmo.
Como se André da Celeste e André Silva não pudessem coexistir no mesmo perfil.
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CAPÍTULO VI — DO DOSSIER SENTIMENTAL
Existe, porém, um fenómeno ainda mais intrigante e que há décadas intriga investigadores, estatísticos e observadores independentes.
Entre nós, André Taqueiro conquistou a reputação de ser aquilo que a literatura moderna designa como:
O Microondas.
Aquece.
Mas raramente serve o prato final.
Ao longo dos anos verificou-se um padrão estatisticamente improvável segundo o qual diversas ex-companheiras do arguido acabaram posteriormente por estabelecer relações com outros elementos da irmandade cernachense, existindo inclusivamente registo da constituição de famílias e do nascimento de descendência.
O fenómeno tornou-se tão recorrente que atualmente, sempre que André apresenta uma nova companheira ao grupo, a primeira questão já não é:
“Então, como se conheceram?”
Mas sim:
“Quem é o próximo da fila?”
A comunidade científica continua sem explicação consensual para este fenómeno.
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CAPÍTULO VII — DA REPUTAÇÃO COIMBRÃ
Curiosamente, no universo paralelo conhecido como Grupo das Quintas-Feiras, a realidade é diametralmente oposta.
Ali, André Silva é visto como:
* um verdadeiro D. Juan;
* um colecionador de histórias;
* um homem de charme irresistível;
* um galã urbano;
* praticamente uma figura mitológica cuja mera presença altera o equilíbrio demográfico da Baixa de Coimbra.
Enquanto em Cernache é o Microondas,
em Coimbra é o Forno Michelin.
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CAPÍTULO VIII — DA ACUSAÇÃO PRINCIPAL
Não se pretende aqui julgar os cocktails.
Nem os blazers.
Nem sequer as bebidas servidas em copos maiores do que a própria dose.
O que se julga é algo incomparavelmente mais grave:
O abandono simbólico das origens.
A tentativa de ocultar André da Celeste em benefício exclusivo de André Silva.
O crime moral de esquecer que antes dos rooftops existiram os balcões das festas.
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CAPÍTULO IX — DO PEDIDO
Face ao exposto, requer-se:
1. A suspensão imediata e preventiva da cidadania cernachense do arguido;
2. A sua transferência administrativa para a freguesia de Ceira, local de origem paterna e aparentemente mais compatível com a sua nova identidade;
3. A possibilidade de reintegração mediante cumprimento cumulativo das seguintes condições:
* publicação pública de fotografias das Festas dos Milagres;
* ingestão continuada de finos durante período não inferior a seis horas;
* renúncia formal às expressões “hoje estou mais numa de gin”;
* reconhecimento escrito de que nenhuma amizade adquirida em idade adulta substitui um amigo da primária.
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Porque um homem pode mudar de cidade.
Pode mudar de emprego.
Pode mudar de estilo.
Pode até mudar de nome.
Mas nunca deixará de ser o rapaz que aprendeu a beber finos, a cometer disparates e a criar histórias eternas nas ruas de Cernache.
E por mais sofisticado que seja o cocktail que segura em Coimbra,
continuará sempre a existir dentro dele um André da Celeste à procura do próximo penalty com bagaço.