Pela Reposição da "Biblioteca Municipal Dr. Jaime Lopes Dias"
Para: Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Ex.mas Senhoras e Senhores Vereadores da Câmara Municipal de Castelo Branco, Ex.mos Deputados da Assembleia Municipal de Castelo Branco
Nós, abaixo-assinados, cidadãos interessados na fruição, no estudo e na divulgação do património cultural e histórico da cidade de Castelo Branco e da região da Beira Baixa, guiados pelo espírito fraterno de Jaime Lopes Dias, vimos por este meio manifestar a nossa mais profunda e veemente indignação com a mudança do nome da biblioteca municipal levada a cabo no ano de 2023.
Este assunto suscitou, a posteriori, um debate intenso na imprensa da região e revelou informações preocupantes acerca do respeito que a história da cidade merece e exige, bem como acerca da dignidade e honradez que devem presidir às decisões que os órgãos do poder local tomam sobre assuntos de carácter público.
Resumimos. A biblioteca municipal de Castelo Branco foi criada, como uma grande parte das bibliotecas públicas portuguesas, por legislação liberal da década de 1830. Porém, só em 1864, com a doação de um rico acervo bibliográfico do médico José António Morão é que se pode falar da criação de uma biblioteca pública de Castelo Branco, pese embora a sua abertura ao público só tenha ocorrido na década seguinte. A sua história até à chegada da república resume-se à disputa entre a tutela ser da responsabilidade da Câmara ou do Liceu. Andou por vários edifícios, em situação bastante precária, até que em 1951 abriu nos requalificados paços do concelho, à praça Camões. Neste mesmo espaço, em 1984, na antevéspera da comemoração dos 10 anos do 25 de Abril, por decisão dos órgãos do poder local, democraticamente eleitos, recebeu o nome de Biblioteca Municipal Dr. Jaime Lopes Dias. Para assinalar a efeméride, colocou-se uma lápide epigrafada, à entrada do edifício, no exterior, com os dizeres: “Biblioteca Municipal, Dr. Jaime Lopes Dias”. Escolheu-se um busto e alguns retratos para alindar uma sala onde pontificavam doações documentais da mesma figura. Assim funcionou até 2004, ano em que as suas instalações mudaram para um novo edifício à Devesa, na actual praça 25 de Abril.
Curiosamente, a biblioteca municipal reabriu sem o nome do seu patrono. Para indignação da família, em 2023, o elenco camarário mudou-o para biblioteca António Salvado. Apesar de a família pedir explicações e reuniões com o sr. presidente da Câmara, expressar o seu protesto nos jornais, a resposta dos órgãos municipais foi sempre o silêncio. Foi manifesta a incapacidade para justificar uma decisão tão polémica.
Ninguém informou a família da mudança do nome, ninguém se dignou apresentar, publicamente, as razões por que a biblioteca perdia o nome do seu único patrono até à data. Para nós (e para os cidadãos que assinam esta petição), a mudança representa uma afronta moral e familiar inaceitável. Nenhuma instituição pública em Castelo Branco (o museu, o hospital, o liceu, por exemplo), à qual se tenha dado o nome de uma figura pública, até ao presente, foi vítima de uma usurpação ostensiva e descarada como a biblioteca. Nós queremos saber porquê. Feriram a dignidade, a honra e a memória de uma pessoa que nunca regateou esforços para ajudar pessoas e instituições de toda a Beira Baixa. Quando era necessário representar a Câmara Municipal de Castelo Branco em efemérides de Estado em Lisboa e os autarcas locais não podiam ou não queriam deslocar-se à capital, depois de 1936 e até à década de 1970, Jaime Lopes Dias fazia-o com garbo e entrega inexcedíveis. Nunca pedimos nada à Câmara Municipal, vivemos sempre longe do poder, foi de livre e espontânea vontade que o elenco de 1984 quis prestar homenagem a um dos seus maiores vultos intelectuais e morais do século XX, dando o seu nome à biblioteca.
As figuras públicas actuais merecedoras de idênticas distinções devem tê-las, sem dúvida, mas nunca às custas dos nomes já homenageados. Existem muitas instituições públicas na cidade, talvez mais de uma dezena, que nunca foram baptizadas com o nome de um patrono. Se querem dar o nome de António Salvado a uma instituição pública, muito bem, mas nunca apagando o nome de outra pessoa para inscrever o dele — ou o nome de outra figura pública. A família e quem se junta a este abaixo-assinado não deixará parar este movimento. Ele só terminará no dia em que os órgãos do poder local repuserem o nome de Jaime Lopes Dias à biblioteca municipal. E, caso isso não aconteça, consideramos que a Câmara Municipal como entidade pública responsável pelo legado de 2.000 livros e 3.000 manuscritos, mais as condecorações e objectos pessoais doados (cujo paradeiro nos é hoje desconhecido), demonstrará assim o seu desinteresse e real incapacidade para preservar e divulgar tão vasto património bibliográfico.
Se o nome do nosso antepassado não serve para a biblioteca municipal, também tudo o que ele tão ciosamente coleccionou — e de que a família abdicou voluntariamente — está a mais, deslocado e no lugar errado.
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