Pelo património vivo da Moita
Para: Presidente da Câmara Municipal da Moita
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Caros Moitenses,
A Moita nasceu do Tejo.
Não nasceu de estradas, nem de avenidas, nem de gabinetes.
Nasceu das marés, das fainas, dos barcos, das famílias que viviam do rio e que no rio encontravam o seu sustento, a sua ligação ao mundo e a sua identidade.
Durante séculos, o canal da nossa terra manteve-se vivo graças a uma obra humilde, mas genial:
as portas de água, construídas em 1723.
Eram mais do que ferro e madeira.
Eram o coração que fazia o rio respirar dentro da Moita.
A cada maré vazante, o açude libertava a água acumulada.
E essa água, ao correr, varria o fundo, limpava o canal, impedia o assoreamento.
Era a nossa draga natural.
Um motor silencioso, mas poderoso, que permitiu que a Moita existisse como vila ribeirinha.
Ao longo do tempo, vimos este sistema ser recuperado em 1981.
Vimos depois ser demolido, num erro que custou caro.
E vimos, em 2011, a humildade de reconhecer esse erro e de reconstruir o que nunca devia ter sido destruído.
Entre 2011 e 2025, as portas de água voltaram a cumprir o seu papel:
mantiveram o canal mais navegável, protegeram quem dele depende, preservaram a ligação da Moita àquilo que ela é — uma terra de rio.
Hoje, porém, catorze anos depois, voltamos a entrar numa zona perigosa.
Há quem considere que as portas estão obsoletas, avariadas, desalinhadas.
Há quem diga que não há dinheiro.
Há quem fale em custos impossíveis.
E, lentamente, a ideia da desativação vai ganhando forma.
Mas nós, moitenses, sabemos o que isso significa:
significa voltarmos a ver a Caldeira assorear a um ritmo galopante;
significa voltarmos a perder horas para navegar;
significa voltar o perigo — o caudal descontrolado, as bardoadas inevitáveis, o risco de acidente grave.
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Isto não é uma questão técnica.
É uma questão de alma.
É uma questão de identidade.
É uma questão de respeito por quem faz a Moita — ontem, hoje e amanhã.
Porque soluções técnicas existem.
São claras.
São realistas.
E são economicamente possíveis:
Redirecionar o fluxo para poente.
Substituir os motores fracos por sistemas robustos.
Programar a abertura do açude com lógica de maré, como já se faz em tantas zonas ribeirinhas.
Não é preciso destruir.
Não é preciso milhões.
É preciso ouvir.
É preciso humildade.
É preciso respeito pelo património vivo desta terra.
Por isso, os abaixo-assinados — moitenses, utilizadores do rio, amantes da nossa história — pedem, com firmeza mas com respeito, que:
1. Este apelo seja lido e registado na Assembleia de Freguesia;
2. Seja levado à Assembleia Municipal, com a força da voz do Presidente da Junta;
3. Seja defendida a reparação, modernização e continuação das portas de água;
4. Seja protegida a navegabilidade do canal;
5. Seja preservado o que resta da nossa ligação ancestral ao Tejo.
Senhores eleitos,
A Moita não pode voltar a perder aquilo que a fez nascer.
A Caldeira e as portas de água não são apenas estruturas.
São raízes.
São memória.
São o coração do nosso rio dentro da nossa vila.
Que não deixemos este coração parar outra vez.