Demissão da Ministra da Saúde
Para: Todos os portugueses , e governo de Portugal
A maior vergonha do nosso país !
SNS!
O mais assustador no discurso da Ministra da Saúde não é a falta de empatia. É a desconexão total com a realidade.
Perante a morte de uma mulher que devia ter sido assistida, a ministra não se desculpou, não reconheceu falhas, não mostrou dor. Preferiu culpar a vítima.
Disse que estas mulheres “não têm dinheiro para o privado, não falam português, nem telemóvel têm”.
Como se o problema fosse a falta de recursos, e não a falha de um sistema que devia ser universal.
O que estas palavras revelam vai muito além da política.
Estas palavras mostram alguém que vive numa bolha, incapaz de se identificar com a vulnerabilidade do outro.
É o pensamento tecnocrático que transforma desigualdade em argumento.
Moralmente, é um abismo , porque a responsabilidade do Estado é proteger, não justificar o que não protegeu.
E culturalmente, é o retrato de um país que já se habituou a ouvir o preconceito como se fosse normalidade.
Porque isto não é um caso isolado. Nos últimos tempos, bebés têm nascido em ambulâncias, sempre nasceram mas , um dia destes serão mais os bombeiros a fazer partos que os obstetras , à porta de hospitais, em corredores, no chão. Há partos feitos às escuras, sem energia, sem condições mínimas.
A taxa de mortalidade materna está na mais alta em quase quatro décadas. Mais de trinta bebés nasceram em ambulâncias só este ano. Isto não é exceção, é sintoma.
E mesmo assim, a resposta da ministra foi culpar quem morreu.
Dizer que não tinha telemóvel. Que não tinha dinheiro.
Mas quantas pessoas em Portugal teriam dinheiro para pagar um parto num hospital privado? E porque teremos todos que ir parir a um privado??
A esmagadora maioria dos portugueses vive com rendimentos baixos, faz contas ao cêntimo, espera meses por consultas.
A norma em Portugal não é a vida da Senhora Ministra.
A norma é a do português que sobrevive e que ainda acredita que o Serviço Nacional de Saúde é uma promessa de igualdade.
Quem lidera a Saúde devia falar de pessoas, e não de diferenças de classes.
Porque, no fundo, o que a Senhora Ministra fez foi tentar desculpar-se com algo que eu nunca vi em 48 anos de vida: com a discriminação e o preconceito de alguém ser pobre, de não ter dinheiro para o privado, de não ter telemóvel, de não ter sorte.
E o preconceito, seja ele qual for , social, racial, económico ou cultural , devia ser considerado crime há muito tempo em Portugal.
Qualquer discurso que não seja pelo menos neutro, que sublinhe as diferenças por causa da cor, do país de origem ou do saldo bancário, devia ter consequência.
Porque é essa normalização do preconceito que mata em silêncio.
Eu, como portuguesa, sinto vergonha.
Vergonha por ouvir uma ministra justificar o injustificável.
A senhora pode ter formação académica, pode ter títulos e cargos, pode ter doutoramento e currículo , mas formação académica não faz de ninguém uma boa política, uma boa gestora de saúde, nem uma boa comunicadora quando é preciso tranquilizar o país e assegurar que situações como estas não voltam a acontecer.
E agora pergunto: e se, em vez desta mulher, tivesse sido uma portuguesa com estudos, com possibilidades financeiras, com uma conta recheada, mas que, por confiar no médico que a viu, escolheu ser atendida no público e não no privado?
O que é que a Senhora Ministra diria então?
Desta vez já não poderia usar o escudo do privilégio , ou da falta dele , que, diga-se de passagem, lhe ficou muito mal.
Qual seria a desculpa?
Porque o que está em causa não é a condição da vítima.
É a condição do país.