Conteúdos Inapropriados em Televisão
Para: Ex.mo Senhor Presidente da ERC- Entidade Reguladora para a Comunicação Social
Exmo. Senhor Presidente da ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação Social,
Não se admite que a ERC, entidade criada precisamente para zelar pela responsabilidade e pela ética na comunicação social, se mantenha apenas como espectadora passiva perante um fenómeno que, dia após dia, destrói silenciosamente a nossa sociedade. É incompreensível que, tendo consciência do poder que os meios de comunicação exercem sobre as massas, continue a assistir, impávida e serena, à destruição massiva dos valores que sustentam a convivência humana e o respeito mútuo entre cidadãos.
Programas como o Big Brother não são simples entretenimento. Tornaram-se verdadeiros instrumentos de manipulação social, normalizando comportamentos agressivos, a humilhação pública e a exposição excessiva da intimidade alheia. O que outrora se apresentava como um formato de observação social, transformou-se numa arena de desrespeito, onde o valor humano é substituído pelo conflito, pela intriga e pelo espetáculo do sofrimento.
É inaceitável que a ERC continue a permitir a difusão deste tipo de programa, ignorando o impacto destrutivo que tem nas mentalidades, especialmente nas gerações mais jovens. Estes conteúdos não educam, não informam e não promovem qualquer tipo de desenvolvimento cultural. Pelo contrário, alimentam o ódio, a raiva, a inveja e incentivam condutas menos próprias, muitas vezes reproduzidas no quotidiano por quem os consome.
Num tempo em que a sociedade já enfrenta inúmeros desafios - desigualdades, desinformação, intolerância - é insustentável permitir que a televisão, um meio de comunicação de tão grande alcance, contribua ativamente para agravar tais problemas. A liberdade de expressão e o direito à opinião são pilares de uma democracia, mas não podem ser confundidos com a licença para degradar, manipular e deseducar um povo.
Está mais do que na altura de esta Entidade assumir uma posição firme e responsável. O silêncio e a inação equivalem à cumplicidade. O papel da ERC não é observar, mas intervir. É proteger o interesse público e defender os valores éticos e culturais que devem nortear a comunicação social. Permitir que programas como o Big Brother continuem a ser transmitidos, sem qualquer tipo de regulação ou restrição, é abdicar da missão de garantir uma televisão de qualidade, formativa e respeitosa.
Será que é preciso uma revolta da sociedade para que algo seja finalmente feito? Será necessário que a população se levante em protesto para que a ERC perceba o seu papel e a sua responsabilidade? A destruição dos valores humanos não pode continuar a ser tratada como simples entretenimento. Só não vê quem não quer ver.
Acredito que ainda é possível inverter este caminho. Mas é urgente agir. A ERC tem o dever moral e institucional de colocar limites, de exigir responsabilidade e de garantir que a comunicação social em Portugal contribua para uma sociedade mais consciente, mais justa e mais humana.
Com os melhores cumprimentos,