Pela instituição do Dia Nacional da Sororidade: quando uma Mulher avança, todas avançamos
Para: Presidente da Assembleia da República e Senhoras/as Deputados/as
Pela instituição do Dia Nacional da Sororidade: Quando uma mulher avança, todas avançamos
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República
Exmas./os. Senhoras/res Deputadas/os,
Em Portugal, apesar dos progressos alcançados nas últimas décadas em matéria de igualdade de género, subsistem disparidades significativas entre mulheres e homens em vários domínios, sociais, económicos e políticos.
De acordo com dados de 2024 da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), as mulheres ganham, em média, menos 13,2% do que os homens, o que equivale a cerca de 48 dias de trabalho anual não remunerado. Além disso, quanto mais elevado o cargo, maior a discrepância salarial.
Também na política a exclusão das mulheres dos espaços de poder é uma realidade preocupante. Nas eleições legislativas de 2025, apenas 77 mulheres foram eleitas para a Assembleia da República, o que representa 33,9% dos mandatos atribuídos, um valor abaixo da meta legal de 40% definida pela Lei da Paridade (Lei Orgânica n.º 3/2006, alterada pela Lei Orgânica n.º 1/2019). Esta sobre-representação masculina compromete a legitimidade democrática das instituições e perpetua a ausência de perspetivas femininas nos espaços de decisão.
No que diz respeito ao espaço doméstico, a Fundação Francisco Manuel dos Santos revela que, em média, as mulheres asseguram 74% das tarefas, enquanto os homens ficam responsáveis por 23% e os restantes 3% são delegados a ajuda externa remunerada. Apesar de representarem a maioria da população (52,2%) e serem também a maioria das pessoas licenciadas (60%), as mulheres continuam sub-representadas em cargos de chefia e auferem salários inferiores — em média, entre 160€ e 235,10€ a menos por mês do que os homens (CIG, 2014).
Estas desigualdades atuais não são casuais, refletem padrões históricos de acesso ao poder e às redes de influência. Ao longo da história, os homens criaram e beneficiaram de redes informais de apoio, nos clubes, nos almoços, nos jogos de futebol ou golfe e em espaços de decisão onde, naturalmente, se recomendavam e ajudavam mutuamente. Essas redes, muitas vezes invisíveis, funcionaram como mecanismos de aceleração de oportunidades. Em contrapartida, as mulheres foram frequentemente socializadas para a competição e a desconfiança, alimentando a narrativa de que seriam rivais e não aliadas.
Mas a verdade é que as redes femininas já foram, em tempos, espaços legítimos de apoio e resistência. Até ao século XVI, a palavra de origem anglosaxónica “gossip” designava relações de proximidade e cumplicidade entre mulheres: laços de amizade, apoio em partos, partilha de saberes e cuidados. Eram vínculos de sobrevivência coletiva, de troca de afetos e até de resistência. Com a ascensão da ordem patriarcal, esse espaço de intimidade foi estigmatizado: deixou de ser visto como suporte e passou a ser associado a frivolidade, maledicência ou despeito (Federici, S.; 2019). Resgatar essa prática, ou reapropriá-la como espaço de conversa genuína, escuta e apoio mútuo, é também uma forma de resistência cultural.
Todos os dias, mulheres abrem caminhos umas para as outras: no trabalho, na família, na comunidade. Esses gestos, tantas vezes invisíveis, são a prova viva de que a narrativa da rivalidade não nos serve. Quantas histórias de conquista existem porque alguém escolheu apoiar e não competir?
A história mundial mostra-nos o poder transformador deste apoio: as sufragistas, que juntas conquistaram o direito de voto para milhões de mulheres; as irmãs Mirabal, conhecidas como “Las Mariposas”, que resistiram unidas à ditadura de Trujillo na República Dominicana e se tornaram símbolo de coragem coletiva, tanto que em sua memória a ONU instituiu o 25 de novembro como Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres; as Mães da Praça de Maio, na Argentina, que transformaram o luto individual em luta partilhada; ou, mais recentemente, o movimento global #MeToo, em que milhares de mulheres se reconheceram nas histórias umas das outras, encontrando força no apoio e na partilha.
Todos estes momentos são testemunho de que, quando as mulheres se apoiam, o mundo muda.
Está, assim, na hora de mudar a narrativa que tem vindo a tornar-se dominante. Está na altura de instituir e celebrar a sororidade.
A sororidade rompe com a lógica da rivalidade imposta. É o gesto consciente de criar redes de apoio, de reconhecer o valor umas das outras, de partilhar poder e de abrir espaço para que todas avancem. É aquilo que acontece quando uma mulher apoia outra e ambas crescem com isso.
Queremos dar-lhe nome, visibilidade e um lugar oficial na nossa cultura. Por isso, propomos a criação do Dia Nacional da Sororidade, a celebrar todos os anos a 25 de outubro, data que assinala o aniversário da Inspiring Girls Portugal, organização que há anos promove a ambição e o empoderamento de raparigas através da inspiração e da conexão entre gerações de mulheres.
Este dia servirá para:
- Inspirar e fortalecer redes de apoio entre mulheres e raparigas;
- Combater a narrativa da rivalidade feminina;
- Promover mentoria, empatia e partilha de experiências reais;
- Criar espaços para que mais jovens se vejam representadas, seguras e apoiadas.
Porque quando uma mulher avança, todas avançamos.
Assim, solicitamos que a Assembleia da República reconheça oficialmente o dia 25 de outubro como Dia Nacional da Sororidade.
As/os subscritoras/es,