Petição pela Defesa do Estado de Direito Democrático e da Constituição
Para: Excelentíssimo Senhor Presidente da República Portuguesa e Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
(Esta petição pública tem origem num manifesto cívico que, por sua vez, brotou do reencontro dos antigos alunos do Curso de Direito da Universidade de Coimbra,1995-2000, na celebração dos 25 anos da sua conclusão, afirmando-se como contributo para o debate público em defesa da Constituição, da Democracia e do Estado de Direito.)
___No ano em que celebramos o vigésimo quinto aniversário do nosso Curso de Direito, em Coimbra - cidade-matriz da cultura jurídica portuguesa, com seus honrosos 735 anos de existência - e em que Portugal assinala meio século de Democracia, sentimos o dever de nos dirigirmos à sociedade portuguesa, assumindo a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos, no contributo que pretendemos legar ao debate público, no momento actual da nossa vida cívica, que exige reflexão com substância e ponderação com lucidez.
A democracia portuguesa, fruto de conquistas históricas e de um pacto constitucional que consagra o princípio da dignidade humana como sua pedra angular, a separação tripartida dos poderes e a protecção dos direitos humanos fundamentais, enfrenta hoje desafios que ameaçam a solidez da sua arquitectura.
E, assim, tal como Sophia, também nós, hoje, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” que atravessamos tempos em que o ruído da demagogia e do populismo ameaça ofuscar os valores fundamentais que, desde 1974, têm sustentado a nossa convivência livre, plural e pacífica e que o crescimento de discursos populistas e demagógicos, assentes na simplificação dos problemas, na manipulação emocional e na erosão da confiança nas instituições, constitui um risco efectivo para o Estado de Direito e para a estabilidade do nosso regime democrático e liberal.
Os extremismos - de qualquer sinal - que não oferecem soluções duradouras,
mas ruído, medo e divisão, que se alimentam do desespero e da desinformação, que corroem instituições, que desconfiam da imprensa livre e da ciência comprovada, tentam impor pela força o que não conseguem alcançar pelo debate racional e fundado em factos demonstrados. Como a História nos ensina, começa com as palavras. O “nós” e o “eles”, a constante desumanização do “Outro” que suga e destrói a humanidade do “Próprio”.
Ao esquecermos as lições da História, tolera-se a infiltração no léxico social de palavras e de expressões atentatórias dos mais básicos princípios da ética e da dignidade humana, pilares do Estado de Direito Democrático, frequentemente justificadas por uma alargada concepção de “liberdade de expressão”, que dá voz ao discurso de ódio que, no limite, nega o direito de existência desse “Outro”. Importa, por isso, defender a liberdade e a democracia. Usar a voz, não com ódio, mas com coragem; não com intolerância, mas com firmeza, e compreender que a democracia é mais do que votar: é participar, é informar-se, é recusar discursos que prometem ordem, sacrificando a liberdade, ou justiça, ignorando a dignidade, e que falham sempre porque só produzem intolerância, injustiça e medo.
Advertia-nos, assim, o nosso Poeta maior, Luís de Camões, reflectindo sobre a dualidade entre as forças racionais e as forças imprevisíveis que influenciam o mundo:
“Verdade, amor, razão, merecimento
Qualquer alma farão segura e forte,
Porém, fortuna, caso, tempo e sorte
Têm do confuso mundo o regimento.”
A verdade e a razão são os pilares do espírito da República Democrática e da nossa tradição jurídica, mas a história ensina-nos que a fortuna, o acaso e a instabilidade podem subverter a ordem racional e abrir caminho à desagregação dos valores que sustentam a comunidade política. O populismo, ao prometer soluções fáceis e drásticas para problemas complexos, mina a confiança nos processos deliberativos próprios de um Estado de Direito, que são o alicerce da nossa liberdade.
Já Sophia de Mello Breyner Andresen reflectia no quão vital é a busca pela construção da “forma justa”, assim o evocando:
“Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo”
A Constituição da República Portuguesa é, pois, essa “Forma Justa”, que a todos congrega e é o nosso maior garante de Paz e Coesão, imprimindo previsibilidade e segurança jurídica à nossa vida colectiva. Ela é mais que um documento, é o chão normativo em que assenta o nosso pacto comum de paz, segurança e respeito uns pelos outros.
Por meio dela, os nossos antepassados ensinam-nos a relevância da forma em relação à substância e que, tal relevância, é pilar do Direito enquanto instrumento de justiça. Ensinam-nos que um resultado aparentemente justo, obtido à margem das formalidades que asseguram o contraditório, a defesa, a imparcialidade e a transparência não é verdadeiramente justo, mas, apenas, um exercício de arbitrariedade. Por isso, a observância da forma é condição essencial para que a substância da justiça se cumpra de modo legítimo e digno de confiança, numa sociedade que se quer verdadeiramente livre e maduramente democrática.
Immanuel Kant, expoente da filosofia moderna ocidental, ensinou-nos que o Estado de Direito se funda na liberdade, expressa como autonomia e como coexistência recíproca das liberdades, afirmando:
“A lei universal do direito é: age externamente de tal modo que o uso livre do teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal”.
Para o filósofo, a liberdade do povo só se realiza plenamente quando as leis são fruto da razão pública e da participação esclarecida dos cidadãos. Adverte, ainda, que a democracia só é verdadeira se for representativa e se assentar na fiscalização e na limitação do poder, prevenindo toda a deriva despótica.
A História do século XX, com efeito, revela-nos exemplos de ditadores que chegaram ao poder através de processos democráticos, sendo necessário, hoje, reflectir se estaremos verdadeiramente imunes a tais acontecimentos no século XXI, e apelar a que a sociedade não olvide as conquistas sociais e democráticas pelas quais tanto se lutou, permanecendo vigilante face às novas formas de propaganda e demagogia, hoje amplificadas pelo poder das redes sociais.
Importa, pois, reafirmar a centralidade da Constituição como pacto fundador e instrumento de estabilidade, sendo que a tentação de revisões constitucionais precipitadas, motivadas por conjunturas de instabilidade ou pela proximidade de forças políticas avessas ao espírito constitucional, deve ser firmemente recusada, até porque a Constituição não deve ser entendida como um entrave à mudança, mas, antes, a garantia de que toda a mudança pode ser concretizada, com respeito pelos direitos, pelas liberdades e pela “forma justa” que nos permita chegar cada vez mais próximos da “cidade humana”, fiel “à perfeição do Universo”, com a qual Sophia, perenemente, nos incentiva a sonhar.
E como nos desvela Fernando Pessoa na sua obra Mensagem:
“O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.”
É, pois, entre a verdade e o sonho que uma sociedade livre deve caminhar.
Por isso, sentimos ser nosso dever alertar para o perigo de se sacrificarem a ponderação crítica, a racionalidade do discurso e a integridade dos factos, aos expedientes retóricos e às soluções drásticas e simplistas dos que tudo prometem e nada concretizam. Com desconfianças e ressentimentos, amplificados por redes sociais, envenenam as massas que, seduzidas pelo chocante e o fracturante, acabam por anuir a ideias radicais, sendo, porém, totalmente incapazes de construir sociedades justas e prósperas.
Por isso, somos, também, unânimes em considerar que uma revisão constitucional, no actual momento político, em que partidos de contornos e identidade difusos podem acalentar “agendas próprias”, com desígnios não publicamente assumidos, representa, para a nossa sociedade democrática, um elevado risco de ruptura da coesão e estabilidade do nosso pacto social.
Por outro lado, devem ser combatidos os extremismos, investigando-se e punindo-se, com determinação, os discursos de incitamento ao ódio, que despersonalizam o “Outro”, enquanto propagam verdadeiros anátemas sociais; mais se devendo aplicar, rigorosamente, a proibição constitucional de associações que perfilhem ideologias extremistas, cujos efeitos socialmente perniciosos se encontram amplamente documentados e condenados pela memória histórica universal.
Neste tempo decisivo, a defesa do Estado de Direito democrático exige vigilância, coragem intelectual e compromisso com a verdade, contra as falsas promessas e as retóricas falseadas.
Apelamos, assim, à Sociedade Portuguesa, em Portugal e na diáspora, para que resista à sedução do populismo e da demagogia, para que distinga entre a crítica construtiva e a censura corrosiva que nada edifica, para que valorize a Constituição como instrumento de estabilidade e de justiça, e para que reconheça, na razão e na participação esclarecida, o caminho seguro para a constante renovação democrática.
Não é tempo de precipitações, mas de aprofundamento da cultura cívica, do debate informado e do respeito pelas nossas instituições democráticas.
É tempo também de ensinar este legado, da compreensão e do respeito pela Democracia, às novas gerações de jovens portugueses, nomeadamente, incluindo a literacia política nos planos educativos para a cidadania, formando gerações intelectualmente resilientes à penetração de discursos anti-democráticos.
É preciso, hoje, mais do que nunca, aprender a Democracia e formar para a Democracia, enquanto património cívico comum.
Como reflectia, com rara lucidez e beleza, Carnelutti, um dos mais eminentes juristas do séc. XX: “Se o amor ainda não germina na terra, é necessário encontrar um seu sub-rogado” . A alternativa ao amor que nos propõe o inspirado Jurista não é, pois, outra senão o Direito.
Sem nos poder impor um dever de amar, o Direito impõe-nos, pelo menos, um dever de respeitar e, assim, permite assegurar a todos uma convivência com um mínimo de harmonia e dignidade.
É, pois, este respeito democrático, garante da nossa coexistência solidária e pacífica, que deve ser legado a todas as gerações.
Que a lição de Camões, de Sophia e de Pessoa nos inspire a preservar, com rigor e esperança, o edifício do Estado de Direito democrático - o mais nobre legado dos Portugueses que nos antecederam há 50 anos - e da nossa tradição jurídica, confiando na força do Direito, ao serviço da liberdade e da dignidade humana, para continuar a garantir um futuro de paz, de justiça e de esperança a todos os Portugueses.
___Nestes termos, solicitamos a Vossas Excelências, Senhor Presidente da República e Senhor Presidente da Assembleia da República, que se dignem considerar este apelo em defesa do Estado de Direito Democrático e da Constituição da República Portuguesa, promovendo, no âmbito das Vossas elevadas funções de soberania, a salvaguarda da Constituição da República Portuguesa e dos princípios constitucionais, a valorização da cultura cívica e democrática e a rejeição de iniciativas que possam fragilizar o nosso pacto constitucional e as instituições democráticas.
___Mais apelamos a que sejam combatidos os extremismos, investigando-se e punindo-se, com determinação, os discursos de incitamento ao ódio, e aplicando-se, rigorosamente, a proibição constitucional de associações que perfilhem ideologias extremistas, cujos efeitos socialmente perniciosos se encontram amplamente documentados e condenados pela memória histórica universal.
___Instamos, igualmente, a que, em nome do respeito devido à Assembleia da República, enquanto Casa da Democracia, sejam promovidas e defendidas a elevação do discurso e a urbanidade no debate parlamentar, rejeitando e sancionando firmemente quaisquer discursos e comportamentos atentatórios da dignidade da função de Deputado, e que transformem o Parlamento num espectáculo degradante e indigno da Democracia Portuguesa.
___Pede-se, ainda, que esta petição seja objecto de ampla divulgação junto dos Senhores Deputados, contribuindo para um debate público esclarecido e responsável sobre a importância da Constituição, do Estado de Direito e da dignidade do exercício parlamentar na vida colectiva dos Portugueses.
Pela Liberdade e Democracia, sempre!
Coimbra, 10 de Junho de 2025
Com os mais elevados e respeitosos cumprimentos,
Subscrevemo-nos, com deferência,
Os Juristas de Coimbra, do Curso 1995–2000
e demais Gerações de Juristas e Cidadãos
que o subscrevem
Os Proponentes desta Petição
Ana Luísa da Costa Gouveia – cc. 10775917
Carla Alexandra Dias Furtado Ribeiro – cc. 11134155
Carla Sofia da Silva Grosso – cc. 11091395
Carla Sofia de Melo Martins – cc. 11029781
Evelina Ferreira Oliveira – cc. 12561370
João Jorge Gil Rodrigues Cardoso de Almeida – cc. 10832767
José Miguel Cardoso Marques – cc. 11018560
Maria Bernardete Rodrigues Sabina – cc. 10911806
Maria Miguel da Rocha Lhano Iglésias – cc. 11046086
Nuno Ereira Torres Ferreira – cc. 11036936
Sílvia Catarina Henriques de Sousa – cc. 11089377