Caríssimas e caríssimos,
O silêncio cúmplice da diplomacia da maioria dos países do mundo, particularmente a do Presidente dos Estados Unidos da América, e hipócrita conivência de fabricantes de diverso material bélico, constituem o principal suporte do desígnio de aniquilamento do povo palestiniano, particularmente concrectizado na Faixa de Gaza, por parte do Primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyhu, com a cumplicidade de todo o seu gabinete ministerial.
Com esta carta-aberta dirigida ao Primeiro-ministro de Israel (texto abaixo) pretende-se, simultaneamente, instar as consciências de todas as instâncias internacionais, políticas e financeiras, a colocarem-se em sintonia com os esforços do Secretário-geral da ONU, António Guterres, e demais organizações humanitárias que, desde Outubro de 2023, não têm desistido de denunciar e apelar a justa e permanente solução de reconhecimento do Estado Palestiniano, segundo o Direito Internacional e a acordos, entretanto, subscritos por Israel com a Autoridade Nacional Palestiniana.
Apelamos à vossa colaboração, subscrevendo esta Carta-aberta, colocando o vosso nome e número de Cartão de Cidadão/Bilhete de Identidade, remetendo-o para o email:
[email protected]
Além de ser enviada via postal, com todas as assinaturas, para o Primeiro-ministro de Israel, esta carta-aberta será ainda endereçada, para conhecimento, a diferentes instâncias internacionais, incluindo a ONU, União Europeia, Banco Mundial, e demais organizações com carácter global.
Exmo. Primeiro-ministro de Israel,
Sr. Benjamin Netanyahu
Beit Rosh HaMemshala
Smolenskin Street, 9
West Jerusalem
ISRAEL
«One day, when it's safe, when there's no personal downside to calling a thing what it is, when it's too late to hold anyone accountable, everyone will have always been against this.»
«Um dia, quando for seguro, quando não houver nenhuma desvantagem pessoal em chamar a uma coisa o que ela é, quando for demasiado tarde para responsabilizar alguém, toda a gente terá sido sempre contra isto.».
Exmo. Senhor Benjamin Netanyahu,
Primeiro-ministro de Israel,
a premonitória advertência do jornalista egípcio-canadiano Omar El Akkad, acima citada, colocada na rede social X duas semanas após os ataques de militantes do Hamas contra cidadãos israelitas, a 7 de outubro de 2023, confirmou-se numa intolerável realidade, perante a frouxa inação e um mutismo quase generalizado, por parte da maioria dos responsáveis políticos da comunidade internacional, e que hoje persiste apesar de honrosas exceções, das quais se destacam as iniciativas de cidadania, de protesto e de solidariedade, em diversos países.(*).
A indiscriminada destruição da Faixa de Gaza pelas Forças Armadas de Israel e a injustificada barbárie que se abateu sobre mais de dois milhões de palestinianos, assumiu desde então um recrudescimento inequivocamente determinado por Va. Exa., atingindo, no tempo presente, sinistras condutas militares em crescente terror, sem quaisquer justificações políticas inteligíveis.
Desde outubro de 2023 até à presente data assistimos em toda a Faixa de Gaza à morte de mais de 150 mil pessoas, em resultado de uma constrangedora ocupação ilegítima por parte do exército israelita, em resultado do mandato pessoal de Va. Exa. Entre a destruição indiscriminada de habitações, de campos cultivados, de empresas e demais instituições da administração pública e sociais, como hospitais, escolas, além de toda a rede de infraestruturas de fornecimento de água e eletricidade, sucederam-se inumeráveis detenções de civis sem culpa formada, incluindo menores, e cujo paradeiro se desconhece. Tudo isto, sem contar com o desaparecimento de milhares de corpos, soterrados sob escombros de edifícios, e a fuga de 100 mil pessoas, obrigadas a abandonar o território, particularmente em consequência de acções persecutórias…
No momento em que subscrevemos esta carta, desencadeia-se a destruição total do quotidiano de mais de dois milhões de pessoas inocentes, encurraladas pela fome, forçadas a conviverem com uma insalubridade caótica e confinados a 12 por cento daquele território. E desde que Va. Exa. impôs, a partir de abril passado, um embargo total de quaisquer apoios humanitários – alimentos, material médico e meios de assistência de qualquer ordem, combustíveis e roupa, – já morreram à fome mais de 1500 palestinianos, além de funcionários de organizações humanitárias que numa atitude heroica solidariedade ali se mantém. Meticulosamente programada, esta acção foi despudoradamente preanunciada por Va. Exa. com a indisfarçável conivência política, financeira e militar do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump…
O desígnio do seu Governo é neste preciso momento uma das mais humilhante missões de assassinato em massa, servida a sangue-frio, que não se exime de incitar os militares a dispararem sobre mulheres e crianças, com tachos e panelas vazias, na busca desesperada de mantimentos; a esventrarem os poucos abrigos e pertences, transportados em carroças; a destruírem reservatórios de água ou mesmo a metralharem salas de operações dos hospitais que restam, nas quais médicos e enfermeiros procuram salvar vidas de crianças e velhos… O seu único propósito, que é o de todo o seu Governo, em nada difere dos intentos de Hitler, quando atafulhou centenas de vagões de comboios com milhões de judeus, destinados a operações de gaseamento.
Toda uma insanidade a remeter as nossas memórias para o sobressalto dos acontecimentos da “Noite de Cristal”, na Áustria e na Alemanha, entre 8 e 9 de novembro de 1938, sob as ordens do chanceler Adolf Hitler que assim deu início ao maior desastre humanitário da época moderna, do qual resultou a morte de mais de seis milhões de judeus.
Exmo. Senhor Primeiro-ministro de Israel,
no século que catapulta a Inteligência Artificial como o grande feito do nosso viver comum, insurgimo-nos perante a ausência de resoluções humanitárias credíveis, das quais resulta uma total inoperância de natureza política, por parte da maioria dos Governos e das instituições financeiras do mundo – incluindo a União Europeia da qual o nosso país é membro.
E apelando à circunstância de ser o primeiro chefe de Governo de Israel nascido na sua própria pátria, solicitamos se digne a encetar, sob jurisdição da ONU, verdadeiras conversações concertadas com a Autoridade Nacional Palestiniana, conducentes ao reconhecimento do Estado Palestiniano, sopesadas pelos Acordos de Paz de Oslo, de 1993 e 1995, entre o Governo do seu país e a Organização de Libertação da Palestina, e a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, de novembro de 1967, que determina a Israel «o reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de todos os Estados da região e seu direito a viver em paz».
24 de julho de 2025
(*) Visualizada por mais de 10 milhões de pessoas, a desolação de Omar El Akkad foi actualizada em toda a extensão humanitária no seu livro One Day, Everyone Will Have Always Been Against This, editado em fevereiro passado pela Penguin Random House.