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Reparação histórica aos RETORNADOS

Para: Assembleia da República, partidos políticos e população portuguesa

Reparação histórica aos RETORNADOS!
600 mil, um número que marca o rótulo de RETORNADO.
Esse número representa uma fatalidade histórica, como que se voltássemos ao sitio onde pertencemos. Mas esse não era o nosso caso, a maior parte nasceu em África e nunca vínhamos à Metrópole nem vínhamos construir casas para um dia voltar à aldeia que partimos.
Qualquer RETORNADO, lembra-se das imagens dos caixotes junto ao cais de Lisboa, em meados de 1975, das famílias com crianças no chão no aeroporto de Lisboa, com os fabulosos cobertores pretos com duas listas de cor vermelha e amarela, uma imagem aterradora e miserável muito miserável. Mas todos os RETORNADOS, descobriram rapidamente que, RETORNADO foi a palavra possível para que militares, políticos e o país pudesse salvar a face não apenas perante eles, mas sobretudo perante a História.
Fomos, colonos, brancos, africanistas, europeus, ultramarinos, residentes ou metropolitanos e passamos a ser definidos em função da nossa própria fuga, então passamos a ser desalojados, regressados, repatriados, fugitivos, deslocados ou refugiados. Mas em 1975, ficamos a ser definitivamente retornados e miseravelmente ocupámos prédios ainda em fase de construção, que rapidamente e sem condições, eram conhecidos como o BAIRRO DOS RETORNADOS. Muitos foram para hotéis que o famoso IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais), orientava, as roupas, a comida, o levantamento individual de cada família era operacionalizado pelo IARN, ficava bem aos políticos portugueses que assim escondiam as suas caras da vergonha que internamente deveriam sentir. Esse Instituto representa para nós, o marco de que não somos retornados, mas sim fugitivos de uma guerra, que o Estado Português promoveu e que vergonhosamente abandonou os seus miseráveis cidadãos de segunda, como a história regista.
Segundo a história, a política de colonização começa antes de Salazar e do Estado Novo. Ouvíamos os nossos bisavós e avós contar histórias da corrida para África, que prometiam ao povo Português uma vida melhor, se ocupassem terras em África, pois precisavam de ocupar o continente e como a presença portuguesa era reduzida, ofereciam promessas de sonhos.
Lembro-me da palavra chicoronho (colono rude do Sul), mais no sul de Angola, do povo que veio da Madeira e ocupou a cidade de Sá da Bandeira, hoje conhecida como Lubango.
Sim, Portugal enviava a pobreza para África, ou seja, gente em condições miseráveis que iam em condições miseráveis, para marcar posição da presença portuguesa e cumprir os interesses da política portuguesa expansionista da época.
Mais tarde muda um pouco esse perfil e começa-se a utilizar, a carta de chamada onde deveriam ir pessoas que pudessem investir um pouco para apagar e assim esbater os portugueses pobres que se encontravam em África.
Nos anos 50, com o Estado Novo, muitos correram para África sobretudo para Angola e Moçambique, pois a política portuguesa promoveu uma vez mais, o sonho dourado, venham que irão ganhar muito, venham que irão ter casas e aqui importa relembrar que as pessoas, com qualificações muito elevadas foram para África e criaram estruturas muito fortes. Continuamos aqui a responsabilizar Portugal, pelas suas políticas ocupacionistas sem assumirem as responsabilidades pelo ato praticado.
Enfrentamos sérias dificuldades, sofremos muito, fomos discriminados, ouvíamos as palavras “RETORNADO, FACISTAS, ROUBARAM ÁFRICA”.
Mas volto um pouco atrás e relembro os meus avós a descreverem o massacre que existiu à população portuguesa no interior de Angola, nas fazendas, mulheres violadas, crianças mortas à frente dos pais e colocadas dentro das outrora chamadas barricas de sal e mais uma vez o estado português nada fez. Poucas vezes ouvi ou vi relatos na comunicação social desses massacres, mais uma vez o estado português largou-nos como peões. A revolta veio connosco, sofremos, perdemos familiares, perdemos as nossas casas, os nossos animais, perdemos uma vida em família. Famílias que se perderam e se destruíram, por isso a nossa revolta está connosco, mora no nosso “EU”. É uma ferida que não se vê, mas doí muito. Aos RETORNADOS, um bem-haja, pois podíamos ter reagido através de uma revolução, mas não, silenciamos a nossa dor, a nossa perda através do luto e fomos aceitando, como um bom exemplo de portugueses e africanos.
Lembro-me das festas nos bairros dos RETORNADOS, dançávamos a nossa música, a música da nossa TERRA, como diz Paulo Flores, a música da nossa terra (África), mas que também correu connosco. Então que estranho, não somos RETORNADOS, somos sim filhos, netos, bisnetos e trisnetos de refugiados de guerra, que abandonaram a sua terra porque causa da guerra.
Quem pensou em nós, quem se lembrou que os peões estavam a sofrer, que triste ficamos quando ouvimos e lemos académicos escreverem, que o IARN, orientou tudo e todos, que triste noção da realidade.
Perdemos tudo, perdemos as nossas origens, roubaram-nos a nossa felicidade, ceifaram-nos as nossas vidas e acabaram com os nossos sonhos.
Os filhos, os netos e bisnetos dos RETORNADOS, têm memória intrafamiliar e temos bem presente todos os nomes dos políticos que nos ceifaram a vida e que nos retiraram a hipótese de sentir e crescer na nossa terra, sim porque somos refugiados, não retornados.
Sr. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, estas foram palavras suas proclamadas no meio académico, lembra-se?
"vale mais mantermos as coisas assim, e não falar muito, não levantar poeiras, porque ainda abrimos a caixa de Pandora", referia-se aqui à descolonização (retornados).
Mas mudou!
No dia 25 de abril de 2024, o Sr. Presidente abriu a caixa de Pandora, abriu feridas que os RETORNADOS tentam cicatrizar, as feridas voltaram Sr. Presidente!
Nós queríamos a independência das colónias, recordo-me dessa frase na família, mas fomos peões nas mãos desses políticos portugueses, existem relatos de que a ordem de certos políticos portugueses era de abandonarem, quem se encontrasse nas colónias.
Muitas vítimas resultaram, os colonizados, sem dúvida e nós os RETORNADOS e REFUGIADOS também fomos vítimas por termos sidos peões da mediocridade dos políticos portugueses.
Para nós RETORNADOS e REFUGIADOS, as reparações históricas consideradas por si, devidas às ex-colónias como proferiu no dia 25 de abril de 2024, impõe obrigatoriamente que o Sr. Presidente também comtemple essas mesmas reparações a todos nós RETORNADOS e REFUGIADOS, as verdadeiras vítimas desse flagelo.

Assim:
Exigimos que sejam feitas reparações a todos nós Sr. Presidente, em memórias dos nossos avós, bisavós, trisavós que tanto serviram Portugal e os seus políticos como peões de uma estratégia irresponsavelmente e mal delineada, um verdadeiro erro histórico, visando os da primeira leva "portugueses de segunda” e os da segunda leva já com algum capital e letrados.
Temos que fazer parte dessa reparação, exigimos ser ressarcidos por todos os danos causados a este povo humilhado a que vocês sempre chamaram de RETORNADOS.
Pretendemos ser ouvidos no PARLAMENTO, por respeito e honra aos nossos antepassados.
“Referiu o Sr. Presidente que 50 anos passaram. Mundo, Europa e Portugal mudaram. Aquilo que foi evocado não ficou ultrapassado? Os mais novos desconhecem parte destes 50 anos. Muitos dos menos novos deles têm recordações distantes”.
Mas engana-se Sr. Presidente os mais novos da descendência dos RETORNADOS, ainda hoje querem que o ESTADO PORTUGUÊS, efetue reparações pois erámos e somos refugiados de guerra.
Temos que fazer parte dessa reparação que o Sr. Presidente afirmou e assim exigimos ser ressarcidos por todos os danos causados a essa população que a história chama de RETORNADOS.
Outros países colonialistas responsavelmente já o fizeram.
Pretendemos ser ouvidos no PARLAMENTO, por respeito e honra aos nossos antepassados, para que de uma vez por todas se possa conhecer a verdadeira história contada na primeira pessoa.



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Esta petição foi criada em 01 maio 2024
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