Petição por um governo maioritário
Para: Portugueses de toda a origem e condição
A abstenção é a força política (ou apolítica) que venceu as eleições legislativas de 2011. O partido com maior número de votos não chegava a representar um quarto dos eleitores. O país estava prestes a ter um governo que representava pouco mais de 29 por cento dos eleitores.
Ignorada a abstenção, que é como os resultados são apresentados, o governo, com 132 mandatos, teria o apoio de 57,4 por cento dos 230 deputados eleitos para a Assembleia da República, representando 2 813 729 ou 50,4 por cento dos votantes.
Uns quantos espertos preparavam-se então para governarem quatro milhões de portugueses que não se governam, nem se deixam governar e entreterem esses e os outros, que andam, pelo menos, a tentar governar-se, com uma permanente tourada, palhaçada, torneio ou refrega entre os porta-vozes de 132 deputados e os dos restantes 98. Quando não fizerem a vontade ao partido minoritário ou chegar a mostarda ao nariz a qualquer deles, batem com as portas e lá se vai o governo de maioria «estável». Este triste espectáculo foi preferido em relação a uma alternativa de coligação entre os dois, ou até mesmo os três partidos com maior número de votos.
No primeiro caso, o governo, com 182 mandatos, teria o apoio de quase 80 por cento dos deputados, representando 3 727 910 ou 66,7 por cento dos votantes.
Na grande coligação, o governo, com 206 mandatos, teria o apoio de 90 por cento dos deputados, representando 4 381 897 ou 78,4 por cento dos votantes. Só com esta grande coligação seria ultrapassado o número de abstenções, representando 45,5 por cento dos eleitores. Dos seus parceiros minoritários, o partido mais votado nada teria a recear. O abandono da coligação da parte de qualquer um desses parceiros, permitiria ao novo governo continuar a ter o apoio de uma maioria na Assembleia da República. Só na eventualidade da coligação se desfazer totalmente, se poderia passar a ter um governo minoritário, cuja estabilidade dependeria do equilíbrio das forças políticas, na ocasião.
Uma grande coligação para governar Portugal é uma coisa de betinhos. Ali à marra com 98 deputados de quatro partidos, representando 2 298 993 ou 41,1 por cento dos votantes, é que é coisa de homem de barba rija e mulher de pêlo na venta, assim uma aliança de Ferrabrás com a Padeira de Aljubarrota, ajudados pelo Zé do Telhado e a Maria da Fonte, mas, principalmente, contra a maioria dos portugueses que não se sabem, nem deixam governar, n«o seu imediato papel de vítima e a sua imediata estupidez», «sempre o mesmo», a ver «passar a procissão política, com os seus andores, cavaleiros e palafreneiros», quer dizer, carros topo de gama, motoristas e escolta da GNR.
Uma palavra final para os «outros», todos os restantes partidos sem representação para lamentar, os brancos e os pretos (ou nulos). Está-se a falar de 475 872 teimosos, 4,9 por cento dos eleitores ou 8,5 por cento dos votantes. Das duas, quatro: 1) ou conseguem cativar a atenção do Zé Povinho; 2) ou se juntam numa coligação arco-irís (salvo seja); 3) ou se coligam com os parentes mais próximos ou de conveniência, à moda da casa; 4) ou devem dedicar-se a outra coisa qualquer, por exemplo, a uma ONG que parece ser «um emprego com saída». Aquela terceira, parece ser duas, ligeiramente diferentes, mas isto é de português para portugueses e dois e dois são, mais ou menos quatro.
Não há pachorra para escrever a mesma coisa, oito anos depois, actualizando os números e os nomes. Se o leitor se quiser dar a esse trabalho e chegar a resultados muito diferentes, diga.
Esta petição não é promovida por nenhum grupo de intelectuais, em grande parte responsáveis pelo estado a que isto chegou. Ela é subscrita por Portugueses de toda a origem e condição, fartos de palhaçadas e hipocrisias e andar a sustentar malandros e gente que não tem onde cair morta.