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CARTA ABERTA: CARLOS VEIGA E AS LIGAÇÕES À EXTREMA-DIREITA

Para: CANDIDATO PRESIDENCIAL CARLOS VEIGA; AUTORIDADES PÚBLICAS CABO-VERDIANAS

Conscientes de um dever cívico que assumimos, assim como de uma responsabilidade intelectual e histórica da qual não nos queremos esquivar, nós, os signatários desta missiva, apelamos aberta e publicamente aos cidadãos cabo-verdianos, nas ilhas e nas comunidades diasporizadas para que exijam a quem de direito, e com carácter de urgência, uma clarificação relativamente à atuação do candidato presidencial Carlos Veiga. Com efeito, é nosso entender que até que não reste a menor sombra de dúvida acerca das acusações da mais alta gravidade que têm vindo a público através da imprensa portuguesa e da cabo-verdiana, um voto no candidato presidencial Carlos Veiga é um voto na direita radical e, ipso facto, um voto incompatível com os mais significativos interesses da Nação global. Com efeito, é nossa profunda convicção que a propalada ligação extrema-direita portuguesa-Carlos Veiga, ainda que indireta, representa um perigo muito grande, em particular para os fragmentos diasporizados da Nação cabo-verdiana que, na imigração na Europa e nos EUA, têm de conviver diariamente com a chamada direita radical. Trata-se, outrossim, de uma situação inédita na História política de Cabo Verde: desde a independência e até esta, nenhum candidato presidencial teve acusações desta gravidade a mancharem a sua imagem. Não é compreensível nem aceitável que estas acusações não tenham sido rebatidas.

Assim, nesta carta, mostrar-se-á:
(a) o perigo que a extrema-direita representa;
(b) as ligações, documentadas, entre Carlos Veiga e a extrema-direita portuguesa; e, por fim,
(c) o que poderá significar para Cabo Verde e para a diáspora cabo-verdiana na Europa e nos EUA uma Presidência da República exercida por Carlos Veiga.

É sabido que a direita radical ocidental sustenta um discurso aberto de ódio ao imigrante e às populações europeias de fenótipos negros e castanhos, discurso este que, direta e indiretamente, tem movido massas urbanas em campanhas de brutalização e violência contra os corpos negros. Por quase toda a Europa ocidental contemporânea e nos EUA, regiões-chave da imigração cabo-verdiana, a direita radical mune-se de teorias de conspiração que, na sua essência, constituem atentados aos direitos humanos irrevogáveis das comunidades imigrantes. Porventura, o mais mediático dessas teorias de conspiração é o chamado Grand Remplacement (“Grande Substituição”) que, em traves-mestras, considera a imigração como uma ameaça vital à Europa branca. Desnecessário será dizer que os aderentes a esta teoria de conspiração de tudo fazem para travar a suposta “ameaça” dos imigrantes nos países europeus, incluindo o recurso à violência extrema. Infelizmente, tanto os imigrantes cabo-verdianos como os europeus descendentes de cabo-verdianos não estão imunes aos ataques de grupos organizados da direita radical. Na memória coletiva da diáspora cabo-verdiana o nome de ALCINDO MONTEIRO, assassinado a 10 de Junho de 1995 por um grupo de neonazis à caça das bruxas (lê-se: de imigrantes africanos) é o exemplo ilustrativo das consequências que advêm da força crescente da direita radical. Casos mais recentes incluem os assassinatos do jovem GIOVANI RODRIGUES, no norte de Portugal em dezembro de 2020, e do jovem WILLY DUARTE, em Itália, em setembro do mesmo ano. Os casos de violência que não resultaram em assassinatos abundam, de tal forma que não nos é possível elaborar uma listagem no contexto da presente missiva.

A extrema-direita dos dias de hoje tem desenvolvido, a nível doméstico, como aliás sempre fez, a tradicional “mobilização de paixões” sobre a qual escrevia o historiador Robert Paxton. Esta mesma direita radical tem também reforçado as suas ligações transnacionais, visando, assim, captar recursos diversos, sejam estes financeiros ou simplesmente suportes políticos. Exemplos não faltam de encontros transnacionais entre os líderes da direita radical dos vários países ocidentais e, de alguma maneira, dos países da América Latina.

No caso da direita radical lusitana optou-se por enveredar pela via africana, muito provavelmente fazendo de Cabo Verde um laboratório político para futuras experiências e explorações. É neste sentido que se entendem as ligações íntimas entre o poder institucionalizado em Cabo Verde e o líder do Chega, André Ventura, um indivíduo que instrumentaliza o discurso de ódio contra o imigrante e contra os que se caracterizam por fenótipos outros que não estejam associados aos das supremacias brancas. Não fosse a pandemia da COVID-19, ele teria sido recebido, possivelmente com pompa e circunstância, pelas várias personalidades políticas de Cabo Verde, do Presidente da República a ministros.

As ligações entre o Chega de Ventura e o poder instituído em Cabo Verde passaram também pelo solo norte-americano, através de um empresário português, Cesar de Paços. A partir do então embaixador de Cabo Verde em Washington, Carlos Veiga, formulou-se (e passos foram tomados para implementar) uma aliança profana Chega-Cabo Verde, com a nomeação de um dos seus financiadores para Cônsul Honorário de Cabo Verde no estado da Florida, EUA. As ligações Carlos Veiga-César de Paços e entre este e o partido Chega já foram alvo de uma investigação jornalística profunda e cristalina e com recurso a evidências. Os “posts” no Facebook de associados a Cesar de Paços, em particular do antigo líder do Chega na cidade de Porto, atestam também dessa aliança profana Veiga-de Paços.

Quando estalou o escândalo que surpreendeu todo o país, de envolvimento direto de um cônsul de Cabo Verde nos Estados Unidos da América com forças políticas conotadas com a extrema-direita em Portugal, e de claros indícios de corrupção, envolvendo o mesmo cônsul, César de Paços, e o então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Filipe Tavares, o nosso antigo embaixador em Washington, Carlos Veiga, proferiu declarações que todos os cabo-verdianos puderam ouvir, emitidas no “Jornal da Noite” do dia 12 de Janeiro de 2021. Afirmou então que “Todas as informações que nós recebemos não são estas que apareceram neste programa (…)”, fazendo referência a uma reportagem da SIC. Afirmou ainda: (…) movimento de extrema-direita? Um partido que está em Portugal, nós não escolhemos os partidos a que as pessoas aderem.” Ao comentário do jornalista: “Mas a reportagem da SIC mostra que ele é um dos financiadores do Chega.” Carlos Veiga responde “E qual é o problema? (…) Nós não tínhamos informação sobre isso, e nem tínhamos que ter informação sobre isso. Não é um critério de escolha, quando tu queres alguém que te atraia investimentos.” “Penso que não haja nenhum problema com isso, nenhum problema com essa nomeação. Não estou a ver!”

Os argumentos do candidato Veiga, perante o escândalo, oscilavam entre a ignorância e investimento direto. Por um lado, procurou manifestar-se ignorância relativamente à identidade de César de Paços. Veiga, homem de lei de formação e profissão, para além de ter assumido cargos de chefia suprema no quadro do Estado de Cabo Verde, sabe, ou deve saber, que a ignorância em parte alguma é um fator escusatório. Mais ainda, deve o Dr. Veiga saber, enquanto embaixador de Cabo Verde, que o princípio de responsabilidade de comando lhe é imputável. É da sua inteira responsabilidade fazer as devidas averiguações antes de entrar em quaisquer ligações que sujem o bom nome de Cabo Verde.

O argumento de investimento direto no país, embora louvável prima facie, também não iliba o candidato Veiga de responsabilidades. Apesar de o desenvolvimento socioeconómico de Cabo Verde passar diretamente pelo investimento externo, é sabido que a lei e a moral impõem limites bem claros aos fundos que deverão entrar no país. Assim, por exemplo, dinheiro que provenha do crime organizado ou de organizações terroristas, por maior que seja o montante, é automaticamente desclassificado. Da mesma maneira, dinheiro associado à extrema-direita, embora não fira qualquer princípio legal em vigor no país, constitui não só uma ameaça à moral cabo-verdiana, mas também um perigo para a própria vida dos cabo-verdianos.

Como cidadãos residentes na diáspora, cientes do perigo que representam as forças de extrema-direita para as nossas comunidades, e tentando gerir, no quotidiano, as mazelas, e por vezes, os crimes que as atitudes e ações racistas provocam nas nossas vidas, foi com profunda consternação e total repúdio que constatámos que altos responsáveis e políticos no poder no nosso país estiveram abertos a relações com indivíduos ligados a partidos de extrema-direita e racistas.

Com efeito, como os nossos concidadãos poderão compreender, por diversas razões, tanto de Política Internacional, como por respeito às comunidades que residem no exterior, e ainda, por razões históricas, pois a independência foi obtida através de uma luta armada contra forças colonialistas de extrema-direita que não hesitaram em assassinar o nosso herói nacional, Cabo Verde é um estado que não pode de forma alguma ser conotado com partidos ou movimentos cujos membros defendam ou pratiquem atos racistas e que sejam de extrema-direita.

Trata-se de uma situação de todo inadmissível e insustentável para a nossa Nação Global, e não podemos correr o risco de ter um Presidente da República eleito que possa vir a ser acusado, no país ou no estrangeiro, de ter ou de ter tido ligações de alguma espécie com forças racistas e de extrema-direita.

Impõe-se, assim, por quem de direito, uma cabal e inequívoca clarificação documentada à Nação cabo-verdiana de todas as acusações nesse sentido que têm vindo a ser feitas, antes da realização das eleições presidenciais, previstas para o dia 17 de outubro de 2021.

É a nossa imagem que está em causa e, sobretudo, o respeito por nós próprios.






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