Justiça e Memória para o ator Bruno Candé Marques
Para: Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Loures e Exmo. Sr. Presidente da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Moscavide e Portela
O Racismo Matou de Novo.
Fez a 25 de julho de 2021 um ano que o Bruno Candé partiu vítima de um bárbaro assassinato, motivado por ódio racial, perpetrado a sangue-frio na Avenida de Moscavide (Concelho de Loures).
Este crime hediondo, cuja repercussão alcançou todo o país e ecoou internacionalmente, continua a causar pesar à família do ator e à comunidade negra, que tem sido alvo de sucessivas injustiças por parte deste governo e das suas instituições políticas. Não podemos permitir que este assassinato caia nas malhas da impunidade e do esquecimento.
Nascido em Lisboa a 18 de setembro de 1980, Bruno Candé Marques era ator da Companhia de teatro Casa Conveniente, onde integrou diversos espetáculos. Participou também da novela “A única mulher” na TVI. Pai de três filhos, Candé cresceu em Chelas e vivia, antes de ser assassinado, no Casal dos Machados, ao lado de Moscavide, bairro que frequentava e era parte de seu dia-a-dia.
Como forma de honrar Bruno Candé, propomos a criação de um espaço de memória ao ator, com a alteração do nome da Avenida de Moscavide para “Avenida Ator Bruno Candé Marques” e a construção de uma estátua em sua homenagem. A mudança do nome da Avenida de Moscavide pretende também homenagear todas as vítimas do racismo estrutural em Portugal.
O Regulamento Municipal da Toponímia e da Numeração de Polícia de Loures em seu Art. 3.º, n.º 1, estabelece os critérios para a atribuição de topónimos: a atribuição dos nomes das avenidas deve evocar figuras ou realidades com expressão concelhia, nacional ou internacional. O n.º 2 do mesmo artigo do Regulamento refere a mudança de nome das vias por iniciativa popular, nestas mesmas condições. Quanto às homenagens a pessoas, o Regulamento dispõe que serão atribuídas preferencialmente a individualidades de relevo concelhio, nacional, internacional ou universal, ressalvando apenas que não devem ser atribuídas antes de um ano a contar da data do falecimento.
Esta homenagem a Bruno Candé Marques, cujo trabalho em vida era reconhecido na comunidade em seu entorno, bem como no meio artístico, e cujo brutal assassinato teve repercussão de dimensão nacional e internacional, passado um ano de sua morte, está em conformidade com os critérios estabelecidos pelo Regulamento Municipal da Toponímia e, mais do que isso, reflete a necessidade urgente de criação de espaços de memória após um acontecimento que marcou esta localidade, a comunidade em seu entorno, e todo o país.
Estamos determinados a exigir justiça e memória para Bruno Candé, pois essa luta representa um pequeno passo no sentido da reparação das consequências da escravatura, do colonialismo e do racismo no país ao longo de mais de cinco séculos. Representa o combate às desigualdades étnico-raciais e à marginalização das populações afrodescendentes e comunidades racializadas, bem como a batalha pela necessária revisão das leis contra o racismo, a fim de torná-lo crime. Será um importante marco na construção de uma sociedade que seja capaz de encarar os seus fantasmas de frente e na luta por erradicar a opressão.
O racismo deixa marcas e feridas abertas. Esta homenagem a Bruno Candé pretende tirá-las da invisibilidade e da clandestinidade histórica, dando espaço a um processo que quer ser, e é, coleivo e abrangente, para que as comunidades e a sociedade possam sarar.
Para que não se esqueça e nunca mais aconteça,
Justiça e Memória para Bruno Candé