PLANTAÇÃO DE CANA-DE-AÇÚCAR COMO MEMORIAL DAS PESSOAS ESCRAVIZADAS, NÃO!
Para: Para: Exmo. Sr. Presidente da Republica: Exmo. Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa; Exmo. Sr. Primeiro-Ministro: Dr. António Costa; Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa: Carlos Moedas; Exma. Sra. Presidente da Comissão Europeia: Ursula von der Leyen
Os abaixo-assinados, conscientes da história do trágico tráfico transatlântico de milhões de almas africanas escravizadas, ainda hoje chocados pelo nível traumatizante de violência física e psicológica, desumanização, castigos, separações de famílias inteiras, estupros de mulheres, homens e crianças, do que foi a escravatura nas plantações de açúcar manifestam, em nome próprio e no da memória e honra das vítimas da escravatura – de que Portugal foi principal mentor e responsável –, o mais veemente repúdio pela instalação do conjunto escultórico que, de acordo com o nosso conhecimento, será erguido em 2022 no Campo das Cebolas, em Lisboa, sob o título “Plantação – Prosperidade e Pesadelo” do artista plástico Kiluanji Kia Henda, recentemente anunciado pela Câmara Municipal de Lisboa e Djass - Associação de Afrodescendentes (responsável pelo projeto), para dar corpo ao Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas".
O memorial é indiscutivelmente uma unanimidade, mas nunca com tal conjunto escultórico, que em momento algum pode ser visto como uma forma de ressignificação e homenagem as pessoas escravizadas vítimas do dito "Comércio Transatlântico" e os seus descendentes, tal como a Câmara de Gás ou o Campo de Concentração, jamais será para os judeus vítimas do nazismo e os seus descendentes, porque tal acontecimento jamais será deixado no passado.
Na faculdade do bom senso, apelamos ao Governo e, principalmente, à Câmara Municipal de Lisboa para que intervenham no sentido de impedir e reconverter a concretização do tal projeto que, longe de ter em vista homenagem às vítimas da escravatura transatlântica, se prefigura como uma humilhante, injusta e desonesta tentativa de romantização da escravatura e do escravizado cuja ambição mais justa e fervente era de escapar à plantação para nunca mais regressar e, no processo, se possível destruí-la por completo, reduzindo-a em cinzas.
O Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas, com o conjunto escultórico sob o título “Plantação – Prosperidade e Pesadelo”, apresenta-se e é uma tentativa já aprovada de homenagem a escravidão, um crime contra a humanidade, e não ao escravizado.
Portugal foi a porta para o holocausto africano. Isto é, o comércio transatlântico de pessoas escravizadas. Mas Portugal não deveria ficar conhecida como uma nação que replicou, no centro da sua cidade capital, um lugar de opressão e violência sistemática, de que foram as plantações de cana-de-açúcar.
Em consequência, solicitamos de V/ Exas o máximo empenho para solucionar esta situação.
Os signatários
Aristóteles Kandimba
Manuel L. Dias dos Santos