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Painéis de Nuno Gonçalves à luz da razão

Para: Academia Portuguesa da História, Governo de Portugal

Pedido para a constituição de um comité de sábios com o objectivo de analisar novos dados científicos referentes ao Políptico de S. Vicente de Fora

Desde que reapareceram à atenção do público, no início da década de 1880, os Painéis de S. Vicente de Fora tornaram-se um verdadeiro ícone para os Portugueses, evocando-lhes a Era dos Descobrimentos, de que justamente se orgulham. A pintura suscitou já a reputados historiadores afirmações como as do seguinte teor: «'Os Painéis' representam em Portugal um problema de candente interesse nacional» (Charles Sterling, 1968); «O carácter eminentemente problemático da sua origem confere-lhe [ao políptico de S. Vicente de Fora], desde há um século, um estatuto de peça central na história da arte portuguesa» (Ignace Vandevivere, 1999).


1. Novos dados científicos para a questão.

No livro Os Painéis de Nuno Gonçalves (Jorge Filipe de Almeida e Maria Manuela Barroso de Albuquerque, Editorial Verbo, 2000 e 2003) foram identificados na bota e no botim de duas figuras em primeiro plano retratadas no Painel do Infante símbolos que são com verosimilhança as iniciais do pintor Nuno Gonçalves e o ano de 1445. A leitura daqueles símbolos foi sustentada pela peritagem paleográfica feita em 2002 no Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo .

Para além disso, a análise dendrocronológica à madeira de suporte do políptico, feita em 2001 pelo Professor Peter Klein da Universidade de Hamburgo, a pedido do Ministério da Cultura (Instituto Português de Conservação e Restauro), reforçou a plausibilidade da nova datação.

A data de 1445, anterior em cerca de um quarto de século ao período até então maioritariamente defendido na história da arte portuguesa, possibilita e aconselha uma reinterpretação iconográfica da pintura, a qual foi empreendida na obra acima citada.


2. Ausência de debate sereno dos novos dados

Em 2002, a nova tese despertou o interesse do Ministério da Cultura, que requereu ao Instituto Português dos Museus a organização de um encontro-debate no Museu Nacional de Arte Antiga. Esperar-se-ia que um debate científico decorresse com serenidade e que evitasse a armadilha da polémica exacerbada e emocional, que tanto tem caracterizado a «Questão dos Painéis».

Infelizmente assim não aconteceu e o encontro realizou-se a 29 de Maio de 2003, em circunstâncias controversas que captaram a atenção destacada de meios de comunicação social. Para além disso, e de forma surpreendente, quase oito anos decorridos sobre a realização do debate, não deu este origem a quaisquer actas escritas.

Pelo contrário, ao longo dos últimos anos, historiadores, especialistas da História da Arte, bem como professores universitários que são autores de Histórias de Portugal publicadas sob chancelas de qualidade , exprimiram em cartas formais a sua aceitação das novas teses. Merece especial referência o facto de as duas Histórias de Portugal editadas na década passada pela Cambridge University Press (A Concise History of Portugal, David Birmingham, 2003; A History of Portugal and the Portuguese Empire, Anthony Disney, 2009) aceitarem na íntegra a nova datação, com base na inscrição no botim do jovem adolescente, nos resultados dendrocronológicos e na coerência da iconografia proposta para o ano de 1445.

Significativamente, a revista francesa Dossier de l'Art dedicou o seu número de Julho-Agosto de 2006 à arte ibérica do século XV e ao Políptico de S. Vicente de Fora. O artigo «Les Panneaux de Nuno Gonçalves», da autoria de Jorge Filipe de Almeida e de Maria Manuela Barroso de Albuquerque, proporcionou o tema de capa, na secção Événement. No mesmo número, foi ainda publicado o artigo «La dendrochronologie de la peinture du XVe siècle» (este último assinado por Peter Klein em co-autoria com Jorge Filipe de Almeida), artigo que termina com a seguinte frase: «L'analyse dendrochronologique rend ainsi hautement improbable la datation de ce dernier [o Políptico de S. Vicente de Fora] pour les années de 1460 ou de 1470.» Estas décadas, recorde-se, tinham sido as décadas maioritariamente defendidas pela historiografia da arte no decurso do século passado.
Assim, causa surpresa que o Museu Nacional de Arte Antiga continue a omitir publicamente os novos dados, tão cruciais para o estudo e para a compreensão do políptico. Esta omissão ficou recentemente patente na organização da exposição Os Primitivos Portugueses (1450-1550), o século de Nuno Gonçalves, em cujo catálogo os novos dados não são minimamente referidos. Este facto assume uma gravidade maior na medida em que os dados omitidos constam já de dois documentos com a chancela oficial do Ministério da Cultura: o parecer paleográfico do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, de Dezembro de 2002, e o texto «A dendrocronologia aplicada às obras de arte», do Instituto Português de Conservação e Restauro , de Agosto de 2003.


3. Uma proposta para a superação do impasse




Para obviar uma situação que contraria as normas do Conselho Internacional dos Museus (ICOM) no espírito e na letra, vem por este meio pedir-se a constituição de um comité interdisciplinar de sábios (comissão de estudo) para analisar cientificamente os novos dados sobre o Políptico de S. Vicente de Fora.





Este comité, que deveria incluir peritos nacionais e estrangeiros (um total de doze especialistas constitui uma sugestão plausível) seria mandatado para apresentar ao organismo de Estado que o nomeasse um relatório cientificamente sustentado. Os desejáveis contributos de outros especialistas nacionais e estrangeiros, solicitados pontualmente sob forma escrita e circunstanciada, poderiam ser um complemento precioso. Provavelmente, nenhuma instituição estará melhor posicionada para superintender esta tarefa do que a Academia Portuguesa da História, tanto mais que já em 2007 (Diário da Assembleia da República II série-B, nº 56, 4 de Fevereiro de 2008, pp.138 e 139) a co-signatária do presente pedido recebeu despacho favorável da então Ministra da Cultura, a Professora Doutora Isabel Pires de Lima, ao seu requerimento parlamentar para a intervenção da Academia Portuguesa da História na prossecução da análise de novos dados surgidos na datação e temática dos Painéis de S. Vicente de Fora. Sublinhe-se que esta é a mais antiga Academia Portuguesa, tem facilidade de congregar especialistas de diferentes áreas e que a vertente histórica é basilar nesta questão.

As conclusões obtidas, caso fossem substantivas, deveriam ser tidas em conta ao expor museologicamente uma pintura classificada de tesouro nacional. Existe a séria possibilidade de serem conclusões que contribuiriam para valorizá-la de sobremaneira: poder o políptico passar de obra atribuída a Nuno Gonçalves a obra autógrafa desse pintor português; a sua datação poder recuar um quarto de século (de cerca de 1470 para 1445), reforçando-lhe assim o seu estatuto de peça excepcional e inovadora no panorama da Arte Nova que se afirmou na Europa de meados do século XV; facto não menos importante, a possibilidade de identificar nos principais retratados os filhos de D. João I, aqueles mesmos que Camões designou de «Ínclita Geração».

Este desafio, que nos é lançado a mais de cinco séculos de distância é em tudo aliciante, pois só uma sociedade disposta a encarar o seu passado com abertura intelectual, utilizando com critério científico o contributo de novas tecnologias, pode aspirar legitimamente a um futuro de inovação e de progresso.



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